A gestora de private equity IG4 Capital declarou ter capital suficiente para comprar, à vista e em dinheiro, toda a dívida da Raízen, produtora de açúcar e etanol que enfrenta reestruturação extrajudicial, com o objetivo de obter controle acionário de 50,1% da empresa[1][4].
Segundo Paulo Mattos, sócio-fundador da IG4, a proposta está formalmente na mesa e já está em negociação, oferecendo uma saída imediata para credores interessados[2][4]. A empresa tem até março de 2027 para adquirir a dívida e respeitará integralmente o plano de reestruturação já aprovado pelos credores, que prevê converter 45% do passivo em aproximadamente 80% do capital social[1][2].
A Raízen, controlada conjuntamente pela Shell e pela Cosan, enfrenta dificuldades devido a apostas estratégicas malsucedidas, juros elevados e safras fracas, com dívidas totais de R$ 65 bilhões (US$ 12,8 bilhões)[1]. O plano aprovado transforma a empresa em duas unidades: a produtora de açúcar e etanol e a distribuidora de combustíveis, sendo que a operação de distribuição será vendida[1].
Mattos enfatizou que a IG4 não adotará postura hostil em relação a credores ou acionistas, e todos os termos, incluindo preço, serão negociados, embora a avaliação provavelmente seja inferior à de mercado[2][3]. A gestora busca assumir o controle e montar uma equipe de reestruturação, não limitando-se a oferecer consultoria ou estruturas de fundos, pois considera que a base de credores está excessivamente fragmentada e com conflitos de interesse, o que impediria a reestruturação sem um investidor líder[1][2].
O IG4 planeja alocar as ações obtidas por meio da compra de dívida em um fundo de investimento, oferecendo aos credores a opção de receber dinheiro, cotas do fundo ou derivativos vinculados a uma futura venda[1]. Hélio Novaes, CEO da IG4, afirmou que as negociações estão mais avançadas com alguns bancos individualmente, com parte relevante deles desejando ações do fundo e outros solicitando derivativos, e que já estão discutindo preço e volume com esses bancos[1][2].
As negociações estão apenas começando, e a IG4 ainda não sabe se conseguirá adquirir dívida suficiente para fechar o negócio[1]. Novaes observou que grande parte dos detentores de títulos locais e globais prefere receber em dinheiro, e alguns credores demonstraram ceticismo e confusão em relação à oferta, em parte porque a IG4 já conduz uma reestruturação complexa na Braskem e porque não sabem exatamente quais serão os termos oferecidos[1].
Mattos afirmou que a IG4 é completamente independente do Banco BTG Pactual, reagindo à confusão do mercado sobre a relação entre ambos. O BTG, assim como Bradesco e Santander, é credor e investidor da IG4, mas não tem poder de decisão e não receberá tratamento especial[1]. A Raízen possui 32 usinas, das quais 24 estão ativas, e Novaes disse que será necessário um estudo detalhado para identificar quais devem receber investimentos, pois a produtividade da empresa está bem abaixo dos concorrentes[1].
A ideia também é negociar um plano com a Shell, que continuará sendo acionista relevante e aportará R$ 3,5 bilhões, enquanto a Cosan não fará aporte e será fortemente diluída[1]. O valor de mercado atual da Raízen é de R$ 4,35 bilhões, o que significa que 80% da empresa valem R$ 3,48 bilhões, valor que seria recebido pelos credores que detêm pouco mais de R$ 29 bilhões em dívida caso seus créditos já tivessem sido convertidos em ações e vendidos a preços de mercado[1].
A IG4 já manteve conversas informais com a FTI Consulting, Moelis & Co. e Journey Capital, e a partir de quarta-feira pretende reunir-se individualmente com esses representantes para discutir detalhes e preparar uma proposta para cada um[1]. A gestora também enfrenta o maior desafio de sua trajetória, participando da reestruturação financeira de duas das maiores empresas afetadas pelo atual ciclo de crédito no Brasil, a Braskem e a Raízen, que juntas acumulam cerca de US$ 25 bilhões em dívidas[5].
