A Irlanda assumiu nesta quarta-feira (1º/7) a Presidência rotativa do Conselho da União Europeia, com a missão de conduzir o bloco pelos próximos seis meses em meio a pressões geopolíticas, disputas comerciais e negociações internas delicadas.

No Castelo de Dublin, o primeiro-ministro Micheál Martin apresentou o programa da presidência, baseado em três pilares: competitividade, valores e segurança. Entre as prioridades estão a definição do próximo orçamento da União Europeia até o fim do ano e a tentativa de estabilizar as relações com os Estados Unidos.

Sob o lema “a força está na união”, Dublin assume o comando em um cenário de forte tensão. Logo no primeiro dia da presidência irlandesa, Bruxelas elevou para 50% a tarifa de importação do aço, em uma medida voltada à proteção da siderurgia europeia.

Outro desafio importante será a negociação do Quadro Financeiro Plurianual, que define o orçamento da UE para o período de 2028 a 2034. A proposta da Comissão Europeia, estimada em quase 2 trilhões de euros, orienta investimentos em áreas como agricultura e defesa, mas ainda precisa superar a resistência entre países que gastam menos e os maiores contribuintes do bloco.

A Irlanda também terá de preparar, até outubro, uma base de negociação para ser discutida pelos líderes europeus, com o objetivo de fechar um acordo global até dezembro. Esta é a oitava vez que o país assume a presidência rotativa do bloco.

Na agenda externa, a ampliação da União Europeia seguirá como tema sensível. Montenegro aparece como o candidato mais avançado, enquanto Albânia, Moldávia e Ucrânia também devem registrar avanços nas tratativas.

Em relação à guerra na Ucrânia, a Irlanda deve manter o apoio a Kiev e pode participar do anúncio do 21º pacote de sanções contra a Rússia.

Dublin também quer usar sua histórica proximidade com os Estados Unidos para ajudar a recompor o diálogo entre Washington e Bruxelas, abalado durante o governo de Donald Trump. A embaixadora irlandesa junto à UE, Aingeal O’Donoghue, afirmou que existe boa vontade em relação à Irlanda nos EUA e que o país pretende aproveitar esse canal com a Casa Branca.

Os irlandeses defendem mais estabilidade na relação transatlântica, avanços nas trocas comerciais e soluções para questões ligadas à indústria farmacêutica. Empresas como Pfizer, Eli Lilly, AstraZeneca, Novartis e Sanofi mantêm operações no país e sustentam milhares de empregos.

Nas últimas décadas, a Irlanda se consolidou como um dos principais polos farmacêuticos e de biotecnologia do mundo. Ao mesmo tempo, virou um centro estratégico para tecnologia, com sedes europeias de empresas como Google, Meta, Apple, Microsoft e OpenAI.

Esse peso econômico pode influenciar a postura de Dublin nas discussões sobre tecnologia e inteligência artificial durante o semestre. Segundo o jornal britânico The Guardian, a Irlanda tende a agir com cautela nas negociações, evitando avançar em medidas que ampliem a soberania tecnológica e digital do bloco.

O custo da presidência irlandesa é estimado em cerca de 300 milhões de euros, e quase metade do valor deve ser destinada à segurança. Como país neutro, a Irlanda precisará reforçar a estrutura para receber diversas visitas de alto nível, incluindo a reunião da Comunidade Política Europeia em novembro, com líderes de 47 países em território irlandês.

Na relação com Washington, a tensão também envolve a área fiscal. Donald Trump já acusou a Irlanda de atrair empresas norte-americanas com impostos baixos e de retirar receitas que, segundo ele, deveriam ter sido recolhidas pelo Tesouro dos EUA. Nesta quarta-feira, a União Europeia também passa a eliminar tarifas sobre produtos americanos, em razão do acordo firmado no ano passado com Washington.

O entendimento prevê tarifas de até 15% sobre a maior parte das exportações da União Europeia para os Estados Unidos e taxa zero para produtos industrializados americanos que entrarem no bloco europeu.

Fonte original: Metrópoles – Mundo.