A primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi apresentou na quarta-feira, 24 de junho, um plano de investimentos combinados (públicos e privados) de 370 trilhões de ienes (US$ 2,287 trilhões), com vigência até o ano fiscal encerrado em março de 2041[1][2]. O anúncio gerou reação mista entre economistas, que questionam se a iniciativa será capaz de impulsionar o crescimento econômico sem comprometer a disciplina fiscal do Japão[1].

O detalhamento da participação de cada lado — público e privado — ainda não está claro[1]. A estratégia de longo prazo abrange 17 setores considerados críticos para o crescimento econômico e a segurança nacional japonesa, incluindo inteligência artificial, cibersegurança, energia e indústria farmacêutica[1][2]. Do montante total, 101,6 trilhões de ienes serão destinados especificamente à IA e semicondutores[1][2].

Takaichi defende que o Japão precisa elevar seu potencial de crescimento, que tem sido fraco por anos. Segundo ela, as forças estruturais do país — como inovação tecnológica e eficiência do trabalho — são plenamente competitivas com as de outras nações, mas o que falta é investimento doméstico[1]. Takuji Aida, economista do Crédit Agricole, avalia que o pacote pode estimular o investimento das empresas e, com o tempo, ajudar a economia a sair de décadas de estagnação até 2028[1].

Por outro lado, outros analistas duvidam que a lacuna de investimentos possa ser preenchida sem efeitos colaterais. Takahide Kiuchi, economista do Nomura Research Institute e ex-integrante do conselho do Banco do Japão, calcula que, se o governo desembolse 10 trilhões de ienes por ano e a inflação média seja de 2%, os gastos totais entre 2027 e 2040 chegariam a cerca de 160 trilhões de ienes — equivalente a 43% do projeto total[1]. Kiuchi alerta que uma intervenção estatal desse porte no investimento privado pode distorcer a dinâmica de mercado e aumentar a probabilidade de fracasso se ambos os setores alocarem capital em áreas pouco lucrativas[1]. Além disso, tal medida pode enfraquecer a posição fiscal do país[1].

As preocupações com o elevado estoque da dívida pública japonesa têm sacudido o mercado de títulos há meses. A orientação fiscal expansionista de Takaichi não ajudou a reduzir a ansiedade, mesmo que alguns considerem exagerada a reação do mercado e defendam que o Japão está em situação fiscal melhor do que muitas economias avançadas[1]. Os rendimentos dos títulos do governo japonês estão em trajetória de alta, com o papel de referência de 10 anos atingindo no mês passado máxima de quase 30 anos, a 2,8%[1]. Koji Hamada, economista da Daiwa Securities, afirma que é provável que as preocupações com o agravamento da situação fiscal do Japão persistam no mercado de JGBs por algum tempo[1].

Independentemente do resultado final dos investimentos, o plano tende a implicar um aumento inevitável na emissão de novos títulos do governo, segundo especialistas[1]. Embora diferentes setores exijam níveis distintos de apoio governamental — com semicondutores e centros de dados em nuvem demandando o maior volume de recursos —, mesmo áreas menos intensivas em capital provavelmente dependerão de financiamento de longo prazo[1].

Fonte: Dow Jones Newswires[1].