A Justiça de São Paulo desmantelou um esquema de poder informal que controlava a empresa de ônibus Transunião, revelando a existência de um verdadeiro 'governo paralelo' ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Pessoas sem qualquer registro ou cargo formal na concessionária de transporte público comandavam as movimentações financeiras e ditavam as ordens internas da companhia, enquanto a polícia investiga o uso da firma para lavagem de dinheiro da facção criminosa[1][2].
O esquema veio à tona com a Operação Última Parada, que prendeu o vereador paulistano Senival Moura (PT). Documentos obtidos pelo portal Metrópoles e relatórios da polícia indicam que o parlamentar atuava como o chefe real dessa engrenagem oculta, exercendo poder para autorizar movimentações de dinheiro mesmo sem cargo oficial na empresa[1][2]. Mesmo longe do quadro oficial de sócios, o político funcionava como uma instância superior de deliberação para liberar a circulação informal de recursos, funcionando como um 'braço político' da estrutura junto aos órgãos públicos[2][5].
A análise de dados bancários, documentos apreendidos e mensagens telefônicas confirmou que o grupo criminoso desviava grande parte das receitas da concessionária por meio de um caixa paralelo. A empresa era utilizada para misturar receitas lícitas do transporte público com dinheiro de origem ilícita e redistribuir os valores por meio de empresas de fachada e contas interpostas, envolvendo também o uso de 'laranjas' (pessoas usadas para esconder a identidade dos verdadeiros beneficiários)[2][3]. O relatório da polícia descreve a Transunião como parte de um esquema maior de lavagem de capitais, que operou por mais de 10 anos[2][6].
Um ponto crucial da investigação foi o salto patrimonial da empresa: o capital social da Transunião passou de pouco mais de R$ 100 mil para uma cifra superior a R$ 50 milhões entre 2015 e 2019, sem que a origem dos recursos fosse devidamente esclarecida. O Ministério Público aponta que o crime organizado injetou esse dinheiro no patrimônio social para que a empresa pudesse disputar e vencer licitações da Prefeitura de São Paulo[3][5]. Apenas no ano de 2025, a concessionária auferiu mais de R$ 300 milhões por operar no sistema de transportes paulistano[3].
Em decorrência das investigações, o juiz do caso determinou o afastamento imediato de toda a diretoria oficial e decretou uma intervenção estatal na Transunião para assegurar a continuidade do serviço nas linhas de transporte[1][3]. A força-tarefa do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil cumpriu cinco mandados de prisão e outras 104 ordens de busca e apreensão na capital, na Grande São Paulo, no litoral, no interior paulista e em Minas Gerais[1][3]. Até o momento, três pessoas já foram presas, incluindo o vereador Senival Moura, Jair Ramos de Freitas (vulgo Cachorrão) e Devanil de Souza Nascimento[3].
O despacho inicial confiscou bens e travou R$ 194 milhões de forma imediata em contas bancárias ligadas aos investigados e à empresa[1][3]. Além disso, foram sequestrados 117 veículos, 21 imóveis e três embarcações[3][7]. A decisão judicial ressalta que o congelamento total de patrimônios e contas bancárias dos suspeitos pode alcançar a cifra de R$ 30 bilhões, considerando o universo de contas e patrimônios atingidos pelas medidas cautelares[1][3]. O Poder Judiciário também comunicou a Prefeitura de São Paulo para a adoção de medidas cabíveis, incluindo a eventual intervenção administrativa, para assegurar que o transporte da população não seja interrompido[3].
As investigações apontam que, além de Senival Moura, não há suspeita de outro político envolvido nesse esquema específico, conforme confirmado pelo Ministério Público[2][5]. A empresa Transunião opera principalmente na zona leste de São Paulo e foi utilizada para lavar dinheiro do tráfico de drogas e do crime organizado por mais de uma década[2][6]. Em 2024, outras concessionárias, como Transwolf e Upbus, também foram investigadas pelo Ministério Público por suspeita de lavagem de dinheiro para o PCC, indicando um padrão de atuação da facção no setor de transporte público[6].
