Investigação nos EUA revela complexo esquema de lavagem de dinheiro do tráfico de drogas, com brasileiros operando em 12 cidades e laços controversos ao PCC sob sanções americanas.

Um elaborado esquema de lavagem de dinheiro, proveniente do tráfico internacional de drogas, foi desarticulado nos Estados Unidos, envolvendo ao menos seis acusados, entre eles brasileiros. A operação, focada em ocultar a origem de valores ilícitos, realizava depósitos bancários em contas abertas em pelo menos 12 cidades americanas.

O processo judicial, que tramita em um tribunal de Miami, Flórida, culminou com a admissão de culpa de todos os envolvidos. Dois dos brasileiros, Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, foram os primeiros a serem alvo de sanções americanas após a designação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas em maio deste ano.

Um dos réus, Tadeu Sebastiane Rabelo Alves Barbosa, de 30 anos, admitiu ter realizado depósitos nas contas de Shimada e Stella, atuando como intermediário de pagamentos em dinheiro para a rede criminosa, conforme informação divulgada por Jornal de Brasília – Mundo.

O Papel dos Brasileiros no Esquema de Lavagem de Dinheiro

Cinco brasileiros que residiam irregularmente em Orlando, Flórida, juntamente com um cidadão americano, operavam como intermediários financeiros no esquema. O trabalho do grupo consistia em receber grandes somas em espécie e coordenar a distribuição desses valores em diversas contas bancárias pelo país.

A denúncia dos promotores federais lista cidades como Miami e Pensacola (Flórida), Rochester (Nova York), Chicago (Illinois), Cleveland (Ohio), Atlanta (Geórgia), Minneapolis (Minnesota), Los Angeles (Califórnia), Denver (Colorado), Seattle (Washington), Houston (Texas) e Kansas City (Kansas) como pontos de atuação dos depósitos.

Tadeu Sebastiane Rabelo Alves Barbosa confessou ter recebido dinheiro em espécie em Charlotte e Greensboro (Carolina do Norte), e também em Pensacola, em setembro de 2023. Ele admitiu ter lavado pessoalmente US$ 388 mil, enquanto o valor total do esquema alcança aproximadamente US$ 30 milhões, o equivalente a quase R$ 156 milhões na cotação atual.

Controvérsia sobre a Conexão com o PCC e Sanções dos EUA

Apesar de Victor Henrique de Oliveira Shimada ser considerado o principal elo entre operadores do PCC na Flórida e traficantes internacionais pelo Tesouro americano, os documentos do processo judicial consultados pela reportagem não mencionam explicitamente a facção criminosa paulista.

O Departamento de Justiça americano, em nota de 24 de junho, também não fez referência ao PCC ao detalhar as confissões dos acusados. No entanto, a suspeita de laços de Shimada com o grupo serviu de base para as sanções americanas, fundamentadas nas ordens executivas 14059 (combate à produção e proliferação de drogas) e 13224 (mirando pessoas ou organizações consideradas terroristas).

Para procuradores do Ministério Público de São Paulo, Shimada é visto como um prestador de serviço de lavagem de dinheiro para o tráfico internacional do PCC, e não como um integrante da hierarquia da facção. A defesa de Shimada nega categoricamente qualquer envolvimento com organizações criminosas e afirma não ter conhecimento das acusações nos EUA, defendendo sua presunção de inocência.

A Dinâmica do Esquema e as Provas Recolhidas pela Promotoria

Os documentos judiciais indicam que Shimada, conhecido pelos apelidos de "Japa", e Stella Oliveira, apelidada de "Lara Croft", foram cruciais para "facilitar o movimento e a lavagem de receitas ilícitas", incluindo as provenientes do fornecimento de drogas. O traficante responsável pela venda das drogas seria o mexicano Manuel Garcia-Urrea, apontado pelo jornal Miami Herald como traficante de cocaína.

As evidências que sustentam o esquema criminoso incluem mensagens trocadas no aplicativo WhatsApp, análises detalhadas de informações bancárias e depoimentos de testemunhas. Essas provas foram fundamentais para a construção da acusação e para as subsequentes admissões de culpa dos réus.

Um trecho de documento assinado por Tadeu Barbosa e promotores, parte de um acordo de admissão de culpa, descreve a função do brasileiro: "Tadeu Sebastiane Alves Barbosa foi um dos transportadores que recebeu o dinheiro em espécie proveniente de atividades ilegais para que o dinheiro pudesse ser depositado em caixas eletrônicos em todo o país em contas bancárias abertas em Miami e outros lugares, em um esforço para ocultar a natureza e a origem dos fundos".

Próximos Passos do Processo Judicial e o Julgamento

A sexta e última admissão de culpa no caso foi registrada em 23 de junho, consolidando as confissões de todos os seis acusados. As outras cinco, incluindo a de Tadeu Barbosa, já haviam sido aceitas pela corte no início de junho, demonstrando o avanço rápido do processo.

Com as confissões formalizadas, uma audiência de julgamento final foi agendada para o dia 20 de agosto. Nesta ocasião, os desdobramentos do processo e as sentenças dos envolvidos deverão ser definidos pela corte americana, encerrando esta etapa da investigação sobre lavagem de dinheiro e tráfico internacional.

Perguntas Frequentes

O que é o esquema de lavagem de dinheiro do tráfico nos EUA?

É uma operação criminosa que consistia em receber dinheiro em espécie, proveniente do tráfico internacional de drogas, e coordenar depósitos bancários em contas abertas em pelo menos 12 cidades americanas para ocultar sua origem ilícita. O valor total do esquema seria de aproximadamente US$ 30 milhões.

Quais brasileiros foram acusados e sancionados neste caso nos Estados Unidos?

Os brasileiros acusados e que admitiram culpa incluem Tadeu Sebastiane Rabelo Alves Barbosa, Victor Henrique de Oliveira Shimada ("Japa") e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira ("Lara Croft"), além de outros três compatriotas e um cidadão americano. Shimada e Stella foram os primeiros brasileiros a receber sanções dos EUA por laços com o crime organizado, como o PCC.

Qual a relação do PCC com a lavagem de dinheiro nos EUA mencionada no processo?

As sanções americanas contra Victor Henrique de Oliveira Shimada foram justificadas pela suspeita de que ele atuava como principal elo entre operadores do PCC na Flórida e traficantes internacionais. No entanto, os documentos do processo judicial e a nota do Departamento de Justiça dos EUA não mencionam a facção criminosa, gerando controvérsia. Procuradores brasileiros veem Shimada como prestador de serviços para o PCC, não um membro da hierarquia.

Quantas cidades americanas foram usadas no esquema de depósitos do tráfico?

O esquema de lavagem de dinheiro utilizou contas bancárias abertas em ao menos 12 cidades americanas, incluindo Miami e Pensacola (Flórida), Rochester (Nova York), Chicago (Illinois), Cleveland (Ohio), Atlanta (Geórgia), Minneapolis (Minnesota), Los Angeles (Califórnia), Denver (Colorado), Seattle (Washington), Houston (Texas) e Kansas City (Kansas).