Em discurso na França, Lula alerta que o abismo entre nações ricas e pobres se aprofunda, destacando urgência de respostas coletivas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um pronunciamento contundente nesta terça-feira, 16 de maio, durante a Cúpula do G7 em Évian, na França. Em sua fala, o líder brasileiro cobrou mais empenho dos países ricos para a redução das desigualdades que persistem e se acentuam globalmente.

Segundo o presidente, a disparidade entre nações ricas e pobres tem crescido exponencialmente. Ele destacou que, enquanto os desafios se multiplicam em escala global, a solidariedade internacional encolhe, agravando um cenário já complexo para bilhões de pessoas.

Lula enfatizou a necessidade urgente de corrigir um sistema que produz riqueza em abundância, mas que distribui oportunidades de forma assimétrica. Sua participação no encontro do G7, que reúne as principais economias do mundo, ressaltou a importância de abordar essas questões de maneira eficaz, conforme informação divulgada por Agência Brasil – Política.

Aprofundamento da Crise de Solidariedade

O presidente Lula não poupou críticas à inação global. “A distância que separa a prosperidade de Évian da realidade enfrentada por bilhões de pessoas no Sul Global não está diminuindo”, afirmou. Ele descreveu um cenário onde os problemas são crescentes, mas a cooperação internacional é decrescente, afetando diretamente a capacidade de resposta às crises.

Lula lembrou que, no ano passado, o Programa Mundial de Alimentos (PMA) perdeu cerca de 40% de seu financiamento. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o UNICEF também viram seus orçamentos reduzidos em mais de 20%, evidenciando a fragilidade do apoio a iniciativas essenciais. Ele lamentou que guerras e conflitos continuam desviando o foco da agenda de desenvolvimento.

Gastos Militares Versus Necessidades Sociais

Um dos pontos mais sensíveis abordados pelo presidente foi o volume de gastos militares anuais. Ele lamentou a soma de quase US$ 3 trilhões destinada a essa finalidade, enquanto áreas cruciais padecem de recursos. “Não são cifras abstratas. Elas impactam diretamente o cotidiano dos habitantes de países em desenvolvimento”, disse Lula.

Esses impactos se manifestam na vida de milhões de pessoas sem acesso adequado à alimentação, à educação e à saúde, conforme apontou o presidente. Além disso, Lula destacou que o mundo em desenvolvimento transfere US$ 1,4 trilhão por ano em serviço da dívida, um valor sete vezes superior à ajuda recebida dos países ricos, invertendo a lógica da cooperação.

Promessas Antigas e Respostas Falaciosas

Lula recordou sua primeira participação em uma Cúpula do G8, em 2003, e as nove outras desde então. Em todas elas, os líderes se depararam com desafios que afetavam milhões de pessoas. No entanto, o presidente lamentou que “em nenhuma conseguimos construir respostas coletivas e duradouras” para as desigualdades globais.

Ele criticou discursos passados que defenderam desregulamentação de mercados, Estado mínimo e austeridade. Atualmente, Lula observa o ressurgimento do protecionismo e o unilateralismo, que classifica como “respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”, desviando a atenção de soluções genuínas para a crise.

Riqueza Abundante, Oportunidades Assimétricas

Lula exemplificou a profunda assimetria de riqueza ao mencionar, sem citar nominalmente, o primeiro trilionário do mundo. Esse indivíduo, segundo ele, é mais rico do que os 46% mais pobres da população mundial. “Nossa tarefa é corrigir as desigualdades de um sistema que produz riqueza em abundância, mas que distribui oportunidades de forma assimétrica”, reiterou.

O presidente brasileiro lembrou que a Conferência de Sevilha sobre Financiamento para o Desenvolvimento já apontava a direção correta. “O desafio não é administrar a escassez. O déficit que enfrentamos é de implementação e de vontade política”, concluiu, reforçando a urgência de uma mudança real e efetiva por parte das grandes potências, incluindo os membros do G7.