Minério de ferro: o gargalo logístico das novas fronteiras brasileiras

O Brasil, já consolidado como o segundo maior produtor global de minério de ferro, com 430 milhões de toneladas anuais, assiste à emergência de um novo polo de exploração. Longe dos tradicionais centros de Carajás, no Pará, e do Quadrilátero Ferrífero em Minas Gerais, que historicamente respondem por mais de 95% da extração nacional, três regiões despontam com significativo potencial.

Estamos falando de Corumbá (Mato Grosso do Sul), o sertão da Bahia e o interior do Piauí. Essas novas fronteiras, fora do eixo de atuação predominante da Vale, dobraram sua produção nesta década, saltando de 7,4 milhões de toneladas em 2020 para 15 milhões no ano passado. Tal volume, se configurasse um país, o colocaria como o 16º maior produtor mundial de minério de ferro, superando a Turquia e elevando sua fatia na produção brasileira de 1,9% para 3,5% até 2025.

No entanto, o expressivo crescimento enfrenta um obstáculo fundamental: a logística de transporte. Diferentemente das áreas consolidadas, que contam com vasta infraestrutura ferroviária para o escoamento eficiente, as novas regiões carecem de trilhos adequados, o que compromete a competitividade e a expansão plena, conforme informação divulgada por InvestNews – Negócios.

Corumbá (MS): Minério de Ferro Fluvial em Crescimento

Em Corumbá, Mato Grosso do Sul, a J&F Mineração, hoje conhecida como LHG Mining, assumiu em 2022 o antigo Sistema Centro-Oeste da Vale. Sob nova gestão, a produção anual saltou de 2,7 milhões para 12 milhões de toneladas, com projeção de alcançar 25 milhões em breve. A LHG Mining se destaca pela extração de minério de alto teor (Lump High Grade, com mais de 65% de ferro puro), similar ao de Carajás, garantindo preços mais vantajosos no mercado.

A principal barreira é a ausência de conexão ferroviária direta para os portos atlânticos. A solução encontrada pela LHG é a navegação fluvial: o minério é transportado por barcaças pelo rio Paraguai por 2.700 quilômetros até um porto marítimo no Uruguai, de onde segue por navios. Rafael Marchi, diretor da consultoria Alvarez & Marsal, aponta que “não é a logística mais competitiva do mundo”, mas é a única alternativa viável no curto prazo. Para otimizar, a LHG planeja investir R$ 1,9 bilhão na ampliação de seu porto fluvial para 15 milhões de toneladas por ano.

Bahia: O Desafio dos R$ 30 Bilhões em Ferrovias para Mineração

No sertão da Bahia, a mina Pedra de Ferro, localizada em Caetité, a mais de 500 quilômetros do litoral, possui reservas provadas de 550 milhões de toneladas, com potencial para 20 milhões de toneladas anuais por quase três décadas. Contudo, sua produção atual é modesta, cerca de 900 mil toneladas em 2025, devido à complexa logística de transporte que envolve caminhões e trens até o terminal portuário de Maragojipe.

Para destravar o potencial da mina, operada pela Bamin, são necessários projetos ambiciosos: uma ferrovia moderna de 537 quilômetros, ligando Caetité a Ilhéus, e o Porto Sul, também em Ilhéus, ambos estimados em R$ 30 bilhões. A Eurasian Resources Group (ERG), do Cazaquistão, que controla a Bamin, buscou vender a empresa por falta de fundos. A portuguesa Mota-Engil, com a chinesa CCCC como sócia, está em vias de adquirir o projeto, visando uma verticalização que inclui mina, ferrovia e porto, alinhada à estratégia de investimento de Pequim.

Piauí: Caminhões e o Novo Porto para Escoar a Produção de Ferro

O Piauí também enfrenta desafios logísticos para sua produção de minério de ferro em Piripiri, que alcança 1,5 milhão de toneladas anuais. Atualmente, o escoamento ocorre por caminhões, percorrendo 420 quilômetros até o complexo portuário de Pecém, no Ceará, uma distância considerável que eleva os custos e dificulta a competitividade.

Uma importante mudança está a caminho: a exportação começará a ser feita via Porto Piauí, no litoral do próprio estado, após reformas. Isso reduzirá o trajeto rodoviário para 170 quilômetros já neste semestre, otimizando o transporte. A Lion Mining é a única mineradora em operação na região, mas outras empresas, como a Bemisa do Grupo Opportunity, de Daniel Dantas, prospectam novas reservas mais ao sul do Piauí, visando uma produção futura de 15 milhões de toneladas anuais, que igualmente demandará uma infraestrutura robusta.

Perguntas Frequentes

Quais são as novas fronteiras de mineração de minério de ferro no Brasil?

As novas fronteiras de mineração de minério de ferro no Brasil estão localizadas em Corumbá (Mato Grosso do Sul), no sertão da Bahia (Caetité) e no interior do Piauí (Piripiri).

Qual é o principal desafio enfrentado por essas novas regiões produtoras de minério de ferro?

O principal desafio é a falta de infraestrutura logística eficiente, especialmente a ausência de ferrovias que conectem as minas aos portos, dificultando o escoamento do minério de ferro para exportação.

Como a LHG Mining em Corumbá (MS) transporta seu minério de ferro de alto teor?

A LHG Mining (antiga J&F Mineração) transporta seu minério de ferro por via fluvial, utilizando barcaças no rio Paraguai por 2.700 km até um porto marítimo no Uruguai, de onde é embarcado para exportação.

Qual é o investimento necessário para a logística de mineração na Bahia?

Na Bahia, a empresa Bamin (adquirida pela Mota-Engil com a chinesa CCCC) estima um investimento de aproximadamente R$ 30 bilhões para construir uma ferrovia moderna de 537 km e o Porto Sul em Ilhéus, essenciais para viabilizar a mina Pedra de Ferro.

Quem são os principais players atuando nas novas fronteiras de minério de ferro?

Os principais players são a LHG Mining (J&F) em Mato Grosso do Sul, a Bamin (ERG, em processo de venda para Mota-Engil/CCCC) na Bahia, e a Lion Mining e Bemisa (Grupo Opportunity) no Piauí.