O número de mortes por meningite no mundo está diminuindo, mas essa queda mascara uma crítica realidade: o ritmo de redução é muito menor do que a Organização Mundial da Saúde (OMS) projetava, e não há indícios de melhora nos próximos anos. Essa conclusão vem de um estudo publicado na edição de maio da revista The Lancet Neurology, que analisou a carga global da doença com dados de 2023, coletados pelo projeto Global Burden of Disease Study (GBD). A pesquisa, que avaliou 17 patógenos causadores da meningite, é a análise internacional mais abrangente já realizada sobre o tema.
Os resultados mostram que, embora as iniciativas de combate tenham trazido resultados, a desaceleração atual reflete uma estabilização no enfrentamento da doença após os ganhos iniciais da vacinação. O ritmo de queda é insuficiente para que o mundo alcance as metas estabelecidas pela OMS para 2030, que prevê a redução de 70% nas mortes registradas em 2015 (quando a doença causou cerca de 300 mil óbitos). Em 2023, foram computadas 259 mil mortes, um número ainda muito distante do alvo desejado[2][5].
"A desaceleração que vemos hoje reflete uma estabilização no combate à doença após os ganhos iniciais da vacinação", analisa o neurologista João Victor Luisi de Moura, do Einstein Hospital Israelita. O progresso é travado por fatores como o avanço de sorotipos não cobertos pelos imunizantes, o aumento relativo de causas virais e desigualdades no acesso à vacinação globalmente, o que impede quedas mais rápidas[2].
O que é a meningite e quem é mais afetado?
A meningite ocorre quando as meninges, membranas que envolvem o cérebro, ficam inflamadas por infecções bacterianas ou virais. É a principal causa infecciosa de deficiências neurológicas no planeta. O estudo do GBD revela que foram mais de 2,5 milhões de novos casos da doença no mundo em 2023, afetando com maior gravidade especialmente crianças menores de 5 anos. Essa faixa etária representou mais de um terço das mortes, somando 86,6 mil óbitos[2][5].
Os pequenos são mais suscetíveis a casos graves e podem morrer muito rapidamente sem o tratamento adequado. A vacinação precisa acontecer nos prazos recomendados pelas autoridades de saúde, com doses aos 3, 5 e 12 meses de vida. "A letalidade dessa doença depende de como o sistema imunológico do paciente responde à infecção e, às vezes, a resposta excessiva do próprio sistema imune das crianças também acaba comprometendo a saúde. Para o controle da mortalidade, é fundamental que o diagnóstico e o início do tratamento sejam feitos prontamente", explica Moura[5].
Os principais agentes causadores em 2023 foram as bactérias Streptococcus pneumoniae (pneumococo) e Neisseria meningitidis (meningococo), além dos enterovírus não poliomielíticos (EVNP). O estudo identificou como principais fatores de risco para mortalidade o baixo peso ao nascer, a prematuridade e a poluição do ar domiciliar. As condições socioeconômicas também são determinantes: em populações de baixa renda, há menores coberturas vacinais e maior dificuldade no acesso a serviços de saúde, o que amplia tanto a incidência quanto a mortalidade[2][5].
Vacinação: papel-chave e desafios
A imunização é o principal instrumento de controle da meningite bacteriana. No entanto, a cobertura permanece desigual entre países. Nações da África Subsaariana têm um histórico de pouca adesão nas campanhas, o que tornou a região conhecida como "cinturão da meningite"[2]. No Brasil, o calendário do Sistema Único de Saúde (SUS) contempla proteção contra as principais bactérias causadoras. "É importante tomar todas as vacinas nas idades indicadas para adequada proteção. Um esquema vacinal completo, além de gerar imunidade para a pessoa, reduz a circulação dos patógenos em toda a população", frisa o médico do Einstein[5].
Apesar da oferta em todo o território nacional, muitas vacinas que protegem contra a meningite seguem com a cobertura abaixo da meta. A vacina contra o meningococo, por exemplo, alcançou 90,7% do público-alvo em 2025, segundo o Ministério da Saúde. É o melhor número desde 2020, mas o objetivo era vacinar 95% da população na idade correta. Desde a pandemia de Covid-19, as vacinas que previnem a meningite não alcançam os índices ideais. "No Brasil, a incidência e mortalidade em 2025 foram semelhantes às de 2014, ou seja, não houve nem a redução moderada global", observa João Victor de Moura[5].
No último dia 3 de junho, o Ministério da Saúde anunciou o início da vacinação no SUS com a pneumo 20, que protege contra 20 sorotipos da bactéria Streptococcus pneumoniae. Entre os grupos prioritários estão crianças menores de 5 anos, povos indígenas maiores de 5 anos (sem histórico vacinal com pneumo conjugada), idosos com 60 anos ou mais acamados e/ou institucionalizados, e pessoas com condições clínicas específicas atendidas nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE)[5].
E mesmo para quem faz a prevenção correta, é importante continuar de olho: há agentes causadores de meningite para os quais não existem vacinas disponíveis. O estreptococo do grupo B é um exemplo, e crianças com menos de 5 anos são especialmente vulneráveis a ele. O acompanhamento de saúde da gestante permite identificá-lo e fazer o tratamento com antibióticos para impedir a passagem de mãe para filho, principal via de contágio. O uso de antibióticos, porém, só deve ser feito quando recomendado, já que representa uma ameaça adicional ao controle da meningite. "O uso indiscriminado de antibióticos, como para tratar infecções respiratórias e urinárias, favoreceu o surgimento de cepas resistentes de meningite. Isso reduz a eficácia dos tratamentos e aumenta o risco de complicações e morte", pontua o neurologista. Daí o risco da automedicação. Diante de qualquer sinal de meningite, procure atendimento médico[5].
Fonte original: Metrópoles – Saúde.
