Moura Dubeux foca no Minha Casa Minha Vida em meio à estagnação da alta renda

A Moura Dubeux, consolidada como a maior incorporadora e construtora do Nordeste, está redefinindo suas prioridades. Conhecida por seus imponentes edifícios de alto padrão que dominam a orla de Boa Viagem, no Recife, a empresa agora volta seu olhar para o segmento de imóveis populares, impulsionada pelo programa **Minha Casa Minha Vida (MCMV)**.

Essa mudança estratégica se materializa na criação da **Ún1ca**, uma nova operação inteiramente dedicada ao programa habitacional. A iniciativa da Moura Dubeux reflete uma tendência observada em todo o setor imobiliário brasileiro, onde incorporadoras tradicionalmente voltadas para o médio e alto padrão buscam novos horizontes.

O cenário econômico, marcado por juros elevados persistentes e o consequente impacto no poder de compra das famílias, tem sido um fator crucial. Essa virada representa um ponto de inflexão para uma empresa que construiu sua reputação no segmento de luxo.

Da orla de luxo ao Minha Casa Minha Vida: a história da Moura Dubeux

Fundada em **1983** pelos irmãos engenheiros Aluísio, Gustavo e Marcos José Moura Dubeux, a construtora pernambucana iniciou sua trajetória com um projeto ambicioso. Em **1990**, entregou o Morada Apipucos, um empreendimento com apartamentos de **530 m²**, um por andar, sinalizando suas aspirações no mercado de alto luxo.

A expansão para outras capitais nordestinas começou em **2007**, abrangendo cidades como Natal, Fortaleza, Maceió, Salvador, João Pessoa e Aracaju. A estratégia de construir imóveis suntuosos em áreas nobres, como a orla de Boa Viagem, solidificou sua marca. Agora, porém, o foco é outro.

Ainda neste ano, a empresa lançou a **Ún1ca**, sua nova operação dedicada ao programa habitacional. Até junho, essa nova frente já contabilizava **quatro empreendimentos**, totalizando **1,2 mil unidades** e um Valor Geral de Vendas (VGV) de **R$ 440 milhões**.

Juros altos e custos elevados: os desafios do financiamento imobiliário

O setor imobiliário tem enfrentado desafios significativos nos últimos anos. Em **2022**, a Moura Dubeux lidava com o **Índice Nacional de Custo da Construção (INCC)**, que acumulava alta de **36% em três anos**. Repassar esse aumento aos preços tornaria os imóveis inalcançáveis para parte da classe média, enquanto absorvê-lo impactaria as margens de lucro.

Paralelamente, a taxa Selic, que chegou a **2% ao ano** durante a pandemia, disparou para **14% ao ano**. Esse aumento encareceu o financiamento imobiliário convencional, pressionando o poder de compra dos consumidores e afastando investidores que antes sustentavam a demanda por imóveis de médio e alto padrão.

Para **Diego Villar**, CEO da Moura Dubeux, o mercado de alto padrão já atingiu seu limite de expansão no Nordeste. Ele avalia que 'o **tamanho atual do mercado de luxo do Nordeste é esse**. Não vejo perspectiva de crescimento além da inflação'. Por essa razão, a **Ún1ca** é vista como a principal via de crescimento futuro da companhia, enquanto as marcas Moura Dubeux (luxo) e Mood (médio padrão) estão em seus tamanhos estabilizados.

A expansão da Moura Dubeux no Minha Casa Minha Vida

A estratégia para o MCMV não é totalmente inédita para a Moura Dubeux. Em **2006**, a empresa criou a Vivex para desenvolver projetos em parceria com a MRV, mas a sociedade foi desfeita em **2018**. O cenário atual, no entanto, é bem diferente, com um mercado imobiliário remodelado e o MCMV ganhando força.

Em **2022**, a companhia buscou formas mais econômicas de construir, o que levou à criação da **Mood**, marca de médio padrão. Essa operação passou a utilizar métodos construtivos comuns no Minha Casa Minha Vida, como o uso de fôrmas de alumínio para as paredes, que aceleram a obra e reduzem custos, além de empregar o financiamento da Caixa.

Com a criação da **Faixa 4** do MCMV em **2025**, que incluiu famílias com renda mensal de até **R$ 12 mil** e imóveis de até **R$ 500 mil**, entre **30% e 40%** dos imóveis da Mood passaram a se enquadrar no programa. Isso impulsionou a empresa a avançar ainda mais, criando a **Ún1ca** em sociedade com a Direcional, focada nas faixas **2 e 3** do programa.

Movimento nacional: grandes incorporadoras investem no MCMV

O reposicionamento da Moura Dubeux reflete uma tendência nacional. Nos últimos dois anos, os lançamentos enquadrados no **Minha Casa Minha Vida** cresceram **63,7%**, segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). Em **2025**, foram **732 mil moradias** financiadas pelo programa no país, um aumento significativo em comparação com as **482 mil** de **2018**.

Parte desse crescimento se deve à ampliação do escopo do MCMV, que agora atende famílias com renda mensal de até **R$ 13 mil** e imóveis de até **R$ 600 mil**. Diversas incorporadoras tradicionais já notaram essa oportunidade.

Um relatório do BTG Pactual, de fevereiro, apontou que empresas como Cyrela (com a subsidiária **Vivaz**), Eztec (com a **Fit Casa**), Helbor, Lavvi, Melnick (com a **Open Construtora**) e Trisul já operam no segmento de baixa renda. A Mitre, outra grande do setor, também anunciou sua entrada no programa, com lançamentos previstos para **2027**, confirmando que o foco no MCMV é uma estratégia consolidada no mercado imobiliário brasileiro.

Perguntas Frequentes

O que é a Ún1ca e qual seu foco?

A Ún1ca é a nova operação da Moura Dubeux, criada neste ano, dedicada exclusivamente aos imóveis enquadrados nas faixas 2 e 3 do programa Minha Casa Minha Vida. Ela já lançou quatro empreendimentos, totalizando 1,2 mil unidades e R$ 440 milhões em VGV.

Por que a Moura Dubeux está focando no Minha Casa Minha Vida?

A Moura Dubeux direciona seu foco para o MCMV devido à estagnação do mercado de alto padrão no Nordeste, aos juros elevados que encarecem o financiamento convencional e aos altos custos de construção. O CEO Diego Villar avalia que o mercado de luxo já não tem perspectiva de crescimento além da inflação.

Quais outras incorporadoras estão investindo no MCMV?

Além da Moura Dubeux, outras grandes incorporadoras como Cyrela (Vivaz), Eztec (Fit Casa), Melnick (Open Construtora), Helbor, Lavvi e Trisul já atuam no segmento de baixa renda. A Mitre também anunciou sua entrada no programa, com lançamentos previstos para 2027.

Como o Minha Casa Minha Vida mudou nos últimos anos?

O programa Minha Casa Minha Vida expandiu significativamente seu alcance. Atualmente, ele contempla famílias com renda mensal de até R$ 13 mil e imóveis de até R$ 600 mil. Em 2025, a criação da Faixa 4 já havia incluído famílias com renda mensal de até R$ 12 mil e imóveis de até R$ 500 mil.