A primeira onda de calor do verão europeu de 2026 surpreendeu autoridades, a população e a comunidade científica ao atingir de forma intensa as regiões central e norte do continente, registrando temperaturas inéditas em 10 países e marcando um dos episódios mais extremos já documentados na Europa[1][3].

Segundo especialistas, o fenômeno ocorreu em um contexto de legislação trabalhista inadequada e de estrutura urbana pouco preparada para lidar com temperaturas extremas, com marcas entre 5°C e 12°C acima das médias sazonais por mais de três dias[2][4].

O padrão atmosférico conhecido como "bloqueio ômega" (Omega Block), associado a uma cúpula de calor estacionada sobre a Europa Ocidental, foi o responsável pela retenção de ar quente e pela entrada de massas do Norte da África, alterando a corrente de jato e favorecendo céu limpo com forte radiação solar[3][6].

Na França, a cidade de Palluau registrou 43,8°C, enquanto o sul da Europa e os Bálcãs foram atingidos por calor extremo, agravado pelas mudanças climáticas que elevam as temperaturas na Europa em ritmo duas vezes superior à média mundial[1][2].

O episódio recolocou o planejamento urbano no centro do debate: décadas de expansão urbana e pressão imobiliária reduziram áreas verdes em várias cidades, deixando a falta de espaços de sombreamento como parques e a necessidade de mudanças de zoneamento e políticas públicas permanentes de monitoramento, especialmente para proteger idosos[7].

Os impactos vão além de queimadas e chuvas extremas: a pressão sobre os sistemas de saúde aumentou na última semana, com expectativa de crescimento da mortalidade, e grupos como crianças, pessoas em situação de rua e indivíduos com doenças cardiovasculares estão entre os mais vulneráveis[4][5].

Lincoln Alves, pesquisador do Inpe e coordenador-geral de Integração Multinível e Análise de Risco do Ministério do Meio Ambiente, destacou que as altas temperaturas à noite dificultam a recuperação do organismo e prolongam a exposição ao calor, enquanto a infraestrutura europeia, projetada para o inverno, não está preparada para o novo cenário[5][7].

O calor também afeta o funcionamento das escolas, o turismo e o mercado de trabalho: com o verão concentrando o maior fluxo de visitantes no continente, especialmente no Sul e no Centro da Europa, muitos destinos ainda não estão prontos para enfrentar episódios prolongados de calor intenso[7].

Paulo Nossa, da Universidade de Coimbra, defende a dispersão dos fluxos turísticos ao longo do dia e do período de férias, além de protocolos que privilegiem horários mais amenos, e aponta que trabalhadores do setor de turismo, especialmente migrantes e estrangeiros, estão entre os mais vulneráveis[7].

Simon Stiell, secretário executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, afirmou que as ondas de calor extremas tendem a piorar enquanto a humanidade continuar a queimar carvão, petróleo e gás, e defende a aceleração da transição para fontes renováveis, a proteção das florestas e o fortalecimento das políticas de adaptação[6].

Fonte original: Jornal de Brasília – Mundo.