Pix e cartões modernizaram transações, mas a gestão ainda usa processos defasados, perdendo a chance de transformar dados em decisões estratégicas.

A forma como o dinheiro circula no Brasil passou por uma revolução. Graças ao avanço do Pix, à popularização dos cartões e à digitalização dos serviços financeiros, empresas e consumidores movimentam recursos de maneira mais rápida e integrada do que há poucos anos. Essa transformação é visível nos dados: o Banco Central (BC) registrou, no primeiro semestre de 2025, um volume impressionante de 72,5 bilhões de transações de pagamento, somando R$ 59,7 trilhões.

Esse panorama representa um crescimento robusto de 15,2% na quantidade de operações e 14,5% no volume financeiro em comparação com o mesmo período do ano anterior. A velocidade e a capacidade de acompanhar transações digitalmente são benefícios inegáveis, resolvendo uma parte crucial do desafio financeiro das organizações, que agora realizam pagamentos instantaneamente.

Contudo, a modernização ficou, em grande parte, restrita à etapa da movimentação financeira. A gestão desses recursos, em muitos casos, ainda se baseia em processos antigos. Uma empresa pode ter pagamentos digitais, mas continuar dependendo de aprovações manuais, planilhas e análises tardias para realmente entender como o capital está sendo utilizado.

O descompasso entre operação e governança financeira empresarial

O hiato entre a agilidade operacional e a capacidade de governança financeira fica ainda mais evidente à medida que as empresas crescem. Com mais fornecedores, colaboradores, áreas e centros de custo, a necessidade de uma estrutura que acompanhe decisões descentralizadas sem adicionar complexidade desnecessária é premente. Modelos de controle tradicionais foram concebidos para um cenário em que as informações demoravam a circular e as decisões financeiras eram concentradas.

Hoje, esses modelos muitas vezes colocam o departamento financeiro em uma posição de apenas explicar o passado, em vez de atuar ativamente na orientação de decisões futuras. Na prática, muitas organizações ainda tratam as despesas como eventos isolados, consolidando as informações apenas depois que as compras ou contratações já foram feitas. Isso limita a capacidade da empresa de agir no momento certo e de aproveitar estrategicamente os dados gerados pelas próprias transações.

O verdadeiro desafio vai além de saber quanto foi gasto; é fundamental compreender o contexto de cada decisão. Isso significa identificar quem realizou a compra, qual área foi responsável, qual fornecedor esteve envolvido e como esse recurso se alinha aos objetivos gerais do negócio. Essa visão holística é essencial para uma gestão proativa.

Cartão corporativo: de ferramenta de pagamento a fonte de dados estratégicos

Nesse cenário, é essencial repensar o papel do cartão corporativo na gestão. Por muito tempo, ele foi visto apenas como um substituto para pagamentos em dinheiro ou uma forma de agrupar despesas em uma fatura mensal. Essa percepção se tornou limitada em um contexto onde os dados são o centro da gestão empresarial.

Uma transação financeira não é apenas uma saída de caixa, mas uma rica fonte de informações sobre fornecedores, áreas responsáveis, categorias de consumo e as prioridades da organização. Quando esses dados são explorados de maneira inteligente, o pagamento transcende sua função operacional e passa a contribuir para uma gestão mais clara, previsível e estratégica.

Empresas que precisam operar com escala, segurança e previsibilidade estão cada vez mais demandando soluções que vão além de meios de pagamento modernos. Elas buscam tecnologias capazes de conectar pagamentos, dados e regras de negócio, automatizando processos, aumentando a rastreabilidade das movimentações e oferecendo mais visibilidade para as decisões financeiras.

Controles financeiros eficientes e o futuro da gestão empresarial

O desafio contemporâneo não reside na falta de controles, mas na maneira como muitas empresas ainda tentam aplicá-los. Historicamente, a governança financeira foi associada à adição de mais etapas de aprovação, conferências e restrições. Embora isso tenha ajudado a mitigar riscos, também aumentou a complexidade operacional.

A tecnologia atual permite uma abordagem mais eficiente: políticas e critérios de utilização podem ser integrados ao próprio fluxo financeiro, concedendo autonomia às equipes sem que a empresa perca o controle sobre seus recursos. Essa mudança está alinhada com uma transformação maior no setor financeiro.

A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2025 demonstra que os bancos brasileiros continuam a ampliar investimentos em Inteligência Artificial, analytics, automação e computação em nuvem. Isso reforça que a capacidade de converter dados em eficiência operacional será um fator-chave para a competitividade futura. Essa mesma lógica precisa ser adotada pelas empresas.

O futuro da gestão financeira corporativa não será definido apenas pela capacidade de realizar pagamentos digitais — essa etapa já foi superada. O próximo grande avanço consiste em transformar cada transação em uma fonte confiável de informação e cada informação em uma decisão mais assertiva sobre os recursos da empresa. Para isso, pagamentos, dados e processos devem funcionar de forma integrada, criando uma tecnologia financeira que possa acompanhar a complexidade de negócios em crescimento.

Essa evolução também redefine o papel do departamento financeiro dentro das organizações. A área deixa de ser meramente responsável por registrar despesas e conciliar contas após as decisões serem tomadas. Com informações disponíveis no momento certo, o financeiro pode atuar de forma mais estratégica, contribuindo diretamente para a eficiência, o planejamento e a melhor alocação de recursos. Conforme destacado pelo diretor de Produto do Stark Bank, o valor não está somente no pagamento efetuado, mas na capacidade de conectar transações, informações e estratégia para que as empresas operem com maior previsibilidade e alcancem escala.

Perguntas Frequentes

Como os pagamentos digitais impactaram a gestão financeira das empresas no Brasil?

Os pagamentos digitais, como o Pix e o uso de cartões, trouxeram agilidade e facilidade nas transações. No primeiro semestre de 2025, o Brasil registrou 72,5 bilhões de operações, movimentando R$ 59,7 trilhões, um crescimento significativo. No entanto, a gestão desses recursos ainda precisa evoluir para aproveitar o potencial estratégico dos dados gerados.

Qual é o principal desafio das empresas na gestão financeira hoje?

O principal desafio é o descompasso entre a velocidade das operações de pagamento e a capacidade de governança financeira. Muitas empresas ainda dependem de processos manuais e análises tardias, perdendo a oportunidade de usar os dados das transações para tomar decisões estratégicas em tempo real e guiar o futuro do negócio.

Como o cartão corporativo pode se tornar uma ferramenta de inteligência financeira?

O cartão corporativo pode ir além de ser apenas um meio de pagamento. Cada transação gera dados valiosos sobre fornecedores, áreas, categorias de consumo e prioridades da empresa. Ao utilizar esses dados de forma inteligente, o cartão se transforma em uma fonte de informações que contribui para uma gestão mais clara, previsível e estratégica.

O que a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária indica sobre o futuro da gestão financeira?

A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2025 mostra que os bancos brasileiros estão investindo pesado em Inteligência Artificial, analytics e automação. Isso indica que a capacidade de transformar dados em eficiência operacional será crucial para a competitividade, uma lógica que as empresas precisam adotar em sua própria gestão financeira para tomar decisões melhores.