Relatório final da PF aponta “cultura de omissão” na Voepass para burlar fiscalização

A Polícia Federal (PF) concluiu que a companhia aérea Voepass agia de forma deliberada para ocultar falhas em suas aeronaves, com o objetivo de driblar as fiscalizações da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Essa prática visava manter os aviões em operação, evitando que ficassem retidos para manutenção, mesmo com problemas sérios. A conclusão faz parte do relatório final do inquérito sobre o acidente aéreo que vitimou 62 pessoas em junho de 2024, incluindo 58 passageiros e quatro tripulantes.

O documento, ao qual o Metrópoles teve acesso, aponta que a falha técnica que levou à queda do voo 2283 não foi um incidente isolado. Pelo contrário, seria o resultado de “reiteradas condutas de omissão na manutenção dos sistemas de degelo”, agravadas por uma gestão que priorizava a disponibilidade da frota em detrimento da segurança operacional.

Antes da queda em um condomínio em Vinhedo, interior de São Paulo, os pilotos receberam ao menos cinco alertas sobre falhas operacionais, segundo a perícia técnica. Os avisos indicavam a necessidade de abandonar a área de formação de gelo e manter uma velocidade mínima de segurança. Contudo, sem a execução imediata dos procedimentos adequados, houve perda do controle da aeronave.

Cultura de não reporte de falhas e omissão deliberada na Voepass

A investigação da Polícia Federal revelou o que foi classificado como uma “cultura de não reporte” na Voepass, implementada para burlar a fiscalização da Anac. O delegado André Ribeiro, da Polícia Federal de Campinas, afirmou que a apuração identificou uma cultura de omissão em todas as esferas da companhia aérea, onde “pessoas da companhia aérea assumiram o risco de expor a aeronave ao perigo”.

A prática mais comum era a omissão proposital de panes no Technical LogBook (TLB), o livro oficial de registros técnicos da aeronave. Diversos tripulantes confirmaram em depoimento que anomalias eram tratadas “de boca” com a equipe de manutenção, para que os problemas não fossem registrados oficialmente e, consequentemente, não chegassem ao conhecimento da Anac.

Um dos casos mais alarmantes citados no relatório envolveu o próprio voo acidentado. O delegado Carlos de Eduardo Palhares, chefe da Perícia Científica da Polícia Federal em Brasília, destacou que “pilotos do voo anterior apertaram o botão que registrava problema no degelo mais de uma vez. Eles sabiam que estava em falha naquele momento. A obrigação, no entanto, é reportar à equipe de manutenção, mas não houve reporte”.

Manobras administrativas e pressão sobre tripulantes da Voepass

Além da omissão de registros, o relatório da PF detalha outras práticas irregulares que demonstram a “cultura organizacional de omissão” na Voepass. Uma delas era a manipulação da Lista de Equipamentos Mínimos (MEL). A empresa utilizava manobras administrativas, como substituir um componente inoperante por outro já com defeito, para renovar sucessivamente o prazo de retificação sem efetuar o reparo necessário, mantendo aviões com problemas em operação.

Havia também uma forte pressão e coação da direção sobre os funcionários. Depoimentos revelaram que a negligência técnica e a omissão de documentos eram políticas institucionalizadas, mantidas por meio de intimidação e ameaças de demissão. Era comum a chefia pedir que as falhas só fossem formalizadas quando a aeronave chegasse à base principal da Voepass, em Ribeirão Preto, para evitar o bloqueio do avião em outras localidades.

A investigação apurou ainda práticas de manutenção irregular. Um mecânico relatou ter sido orientado a retirar uma bomba hidráulica enferrujada e cheia de fluido de um avião abandonado e instalá-la diretamente em outra aeronave em voo, sem passar pelas revisões e inspeções de bancada exigidas pelos protocolos de segurança.

Experiência do comandante do voo 2283 e a versão da Voepass

O relatório da PF também questiona a seleção de tripulantes, mencionando que o comandante do voo acidentado, Danilo Romano, teria sido promovido rapidamente. Ele não possuía a experiência mínima de 1.000 horas em equipamento ATR, exigida pelas próprias regras da empresa. Uma testemunha sugeriu que a pouca experiência e o fato de ser recém-promovido poderiam torná-lo mais suscetível a ceder à pressão da chefia para pilotar uma aeronave com problemas.

Em nota oficial, a Voepass se manifestou afirmando que a segurança operacional sempre foi sua prioridade ao longo de mais de 30 anos de atuação. A companhia declarou ter adotado rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação de tripulações previstos pela Anac, possuindo inclusive a certificação IOSA (IATA Operational Safety Audit) desde 2012.

A empresa reforçou que os treinamentos de pilotos contemplavam os procedimentos para enfrentamento de condições de formação de gelo, incluindo alteração de altitude e velocidade conforme orientações do fabricante e protocolos operacionais. Segundo a Voepass, as tripulações eram permanentemente orientadas a cumprir rigorosamente esses procedimentos, de acordo com cada cenário operacional.

Perguntas Frequentes

O que a Polícia Federal concluiu sobre a Voepass após o acidente?

A Polícia Federal concluiu que a Voepass omitia reportes de pane para burlar fiscalizações da Anac, priorizando a disponibilidade da frota em detrimento da segurança operacional, resultando em uma “cultura de omissão” que contribuiu para o acidente.

Quais práticas irregulares foram identificadas na companhia?

Foram identificadas a omissão deliberada de panes no Technical LogBook (TLB), manipulação da Lista de Equipamentos Mínimos (MEL), pressão e coação sobre funcionários e manutenção irregular, como uso de peças não inspecionadas.

Havia pressão sobre os funcionários da Voepass para ocultar falhas?

Sim, depoimentos revelaram que a negligência técnica e a omissão documental eram políticas institucionalizadas, mantidas por coação e ameaças de demissão, com ordens para formalizar falhas apenas na base principal da empresa.

O que a Voepass afirma em resposta às acusações da PF?

A Voepass afirmou que a segurança operacional é sua prioridade, que adota rigorosamente todos os protocolos de segurança e manutenção da Anac, e que possui certificação IOSA desde 2012. A empresa declarou que os treinamentos dos pilotos incluíam procedimentos para condições de formação de gelo.

Quantas pessoas morreram no acidente do voo 2283 da Voepass?

O acidente do voo 2283 da Voepass resultou na morte de 62 pessoas, sendo 58 passageiros e 4 tripulantes, após a aeronave cair em um condomínio em Vinhedo, interior de São Paulo.