Todo torcedor guarda na memória um gol ou jogo histórico que parece ter sido congelado no tempo. A ciência explica que isso acontece porque a emoção é um dos fatores mais importantes para consolidar uma lembrança. Segundo o psicólogo Leandro Freitas Oliveira, da Universidade Católica de Brasília (UCB), eventos com grande carga emocional têm prioridade no cérebro, registrando onde a pessoa estava, quem estava ao lado e o que aconteceu de forma muito mais intensa do que em acontecimentos rotineiros[1].

O neurocientista Tiago Bortolini, apoiado pelo IDOR Ciência Pioneira, afirma que três elementos precisam surgir simultaneamente para que essa lembrança se forme: surpresa, emoção intensa e significado pessoal. Para um torcedor, um gol histórico não é apenas um evento esportivo; ele está ligado à identidade, ao pertencimento, à história familiar, à cidade e às rivalidades[1]. Por isso, a lembrança vem acompanhada de detalhes como “estava na sala com meu pai” ou “assisti ao jogo em um bar com amigos”.

Além da emoção, o próprio organismo fortalece esse tipo de memória. Oliveira explica que momentos marcantes estimulam a liberação de adrenalina e noradrenalina, que aumentam o estado de alerta e favorecem a comunicação entre a amígdala e o hipocampo, áreas responsáveis pelas emoções e pela memória[1]. Esse mecanismo consolida a lembrança e faz com que ela permaneça por muito mais tempo.

Durante um lance decisivo, o torcedor acompanha cada movimento com expectativa intensa, fazendo diferentes sistemas do cérebro trabalhar ao mesmo tempo: percepção visual, sons, emoções, respostas do corpo, linguagem, narrativa e identidade social. Quanto mais sistemas participam, mais rica tende a ser a memória[1]. Enquanto um gol histórico pode permanecer vivo por décadas, acontecimentos do cotidiano desaparecem rapidamente por apresentarem pouca novidade e baixa carga emocional.

Outro fator que mantém essas lembranças vivas é a reativação constante: o lance é revisto, comentado entre amigos, compartilhado nas redes sociais e relembrado em conversas familiares. Cada vez que a memória é reativada, ela se fortalece, mesmo que alguns elementos sejam reconstruídos[1]. O futebol potencializa esse processo porque o torcedor não sente apenas que comemorou um gol, mas que “nós comemoramos”. Esse sentimento de pertencimento transforma a memória individual em uma história compartilhada por uma comunidade inteira[1].

Fonte original: Metrópoles – Ciência.