A Renault, que salvou a Nissan de uma quase falência há uma geração e enviou Carlos Ghosn para comandar a montadora japonesa, está reafirmando sua influência como principal acionista. A montadora francesa, que detém 15% dos direitos de voto, se absteve de votar na recondução do influente diretor independente Motoo Nagai no conselho da Nissan na assembleia anual realizada na terça-feira (23), o que resultou em sua saída do colegiado [2][5].

Nagai, ex-banqueiro do principal credor da empresa, o Mizuho Financial Group, teve um papel central durante a expulsão de Ghosn da companhia em 2018 e manteve forte influência sobre nomeações executivas subsequentes, sendo o único diretor a atuar nos comitês de indicação, remuneração e auditoria [2]. A saída de Nagai e a renovada postura mais assertiva da Renault sob o CEO François Provost marcam uma nova fase para a Nissan, que tem lutado para recuperar terreno desde a prisão de Ghosn sob acusações de subnotificação de remuneração [2].

As negociações de fusão com a Honda Motor no início de 2025 não tiveram sucesso e, apesar de uma série de planos de reestruturação, a ação perdeu mais de dois terços de seu valor desde 2018. Os papéis acumulam queda de 22% neste ano [2]. “A Renault deve estar cada vez mais preocupada com o futuro da Nissan, já que normalmente é bastante cautelosa ao intervir nos assuntos da empresa”, disse Julie Boote, analista da Pelham Smithers Associates, em Londres. “Mas, se o alarme de emergência está tocando, a Renault deve acreditar que precisa agir agora” [2].

A reunião do conselho na terça-feira não representou uma vitória clara da agenda da Renault, sugerindo mais turbulência na parceria [2]. Junichi Shinbo, também ex-banqueiro do Mizuho, estava entre os aprovados como diretor pelos acionistas, embora a Renault também tenha se abstido de votar nele [2]. Em nota, a montadora francesa afirmou que optou pela abstenção em vez de oposição aos indicados como uma “decisão deliberada que reflete a moderação do Grupo Renault, e não oposição” [2]. “Não pudemos apoiar suas nomeações por estarem ligados ao Mizuho, principal credor da Nissan, e, portanto, não podem ser considerados independentes”, disse a Renault [2]. “Além disso, Nagai-san serviu à Nissan como auditor estatutário e membro do conselho e de comitês por 12 anos” [2].

A Renault possui cerca de 36% das ações da Nissan, mas exerce menos direitos de voto após um acordo de aliança renegociado entre as empresas em 2023 [2]. A parceria havia sido desenhada para compartilhar custos de desenvolvimento e negociar melhores condições na compra de peças e matérias-primas, além de ter sido expandida para incluir a Mitsubishi Motors [2]. Antes de sua expulsão, Ghosn buscou expandir a aliança, o que encontrou resistência institucional no Japão entre aqueles que viam o movimento como uma fusão irreversível e uma perda da independência da Nissan [2]. Isso contribuiu para os eventos que levaram às acusações contra Ghosn, que ele nega [2]. O ex-presidente agora vive no Líbano após fugir do Japão no fim de 2019 [2].

A própria Renault, enfrentando dificuldades, adotou uma série de medidas para reestruturar seus negócios depois de não poder mais contar com a Nissan para reforçar suas finanças [2]. Isso incluiu novas parcerias, como com a Zhejiang Geely Holding Group, na América do Sul [2]. As ações da montadora francesa caíram cerca de 30% no último ano [2].

O CEO da Nissan, Ivan Espinosa, que anunciou os resultados na assembleia, confirmou que outros 11 diretores alcançaram a maioria necessária para serem nomeados ou reconduzidos, incluindo dois indicados pela Renault — Valerie Landon e Timothy Ryan [2]. O conselho funcionará com esses membros, e nenhum novo diretor será indicado no lugar de Nagai [2]. A saída de Nagai do conselho reflete preocupações dos acionistas sobre seu envolvimento nas decisões que levaram a Nissan à situação atual, segundo o analista sênior da Bloomberg Intelligence, Tatsuo Yoshida [2]. O voto contra ele “pode ser interpretado como uma rejeição simbólica do regime anterior, mais do que um julgamento sobre qualquer indivíduo específico”, disse Yoshida [2].

Espinosa e sua equipe agora estão sob pressão para reconquistar a confiança dos acionistas. Vários acionistas insatisfeitos expressaram descontentamento na assembleia deste ano, criticando os executivos da Nissan, apontando o fraco desempenho das ações e a falta de modelos competitivos [2]. Um investidor chegou a questionar a independência de Nagai e Shinbo, e se opôs à recondução de Espinosa, embora a proposta tenha sido rejeitada por motivos legais [2]. “O maior problema para os acionistas nesta reunião é o preço da ação”, disse o investidor, recebendo aplausos. “É por isso que a maioria dos acionistas está extremamente insatisfeita” [2].

A Nissan tem enfrentado dificuldades para se reerguer, registrando prejuízos líquidos nos últimos dois exercícios fiscais, embora projete retorno ao lucro no período atual até março de 2027 [2]. A empresa tem ¥4,4 trilhões (US$ 27,2 bilhões) em dívida e agências de rating rebaixaram sua classificação de crédito para grau especulativo [2]. Com a turbulência na gestão após a saída de Ghosn, Nagai tornou-se um importante articulador das nomeações executivas [2]. Ele teve papel-chave na saída do ex-COO Ashwani Gupta e esteve envolvido na escolha de Espinosa, segundo pessoas familiarizadas com o assunto [2].