Kremlin atrai estrangeiros descontentes com políticas progressistas do Ocidente, oferecendo 'apoio humanitário' via decreto de 2024.

A Rússia de Vladimir Putin está consolidando uma estratégia ousada para atrair cidadãos de países que considera promotores de "políticas ideológicas neoliberais destrutivas". Recentemente, mais de 1.100 estrangeiros foram beneficiados pelo programa de vistos que a imprensa ocidental apelidou de "antiwoke", com o objetivo de reforçar os valores tradicionais do país.

Essa iniciativa oferece moradia e apoio a quem se alinha à visão conservadora russa, vista como oposta às tendências progressistas que, segundo o Kremlin, corroem o Ocidente. O movimento é parte de uma campanha maior de Moscou contra o que classifica como "ideologias nocivas", intensificando a polarização cultural.

A política visa explicitamente indivíduos de nações que impõem agendas contrárias aos princípios espirituais e morais russos, conforme informação divulgada por Carta Capital – Mundo.

Ações do Kremlin contra o "Ocidente decadente"

Há vários anos, o presidente russo, Vladimir Putin, tem sido um crítico vocal do que considera contradições aos "valores familiares tradicionais". Ele abrange desde os direitos LGBTQIA+ até questões como banheiros mistos, apresentando essas pautas como sinais da decadência moral do Ocidente.

Em 2024, Putin assinou um decreto crucial, formalizando o "apoio humanitário" e a concessão de vistos para estrangeiros de países específicos. Essa medida é um convite direto a quem busca um ambiente alinhado com a visão russa de moralidade e tradição, afastando-se de políticas progressistas.

O foco do programa "antiwoke" está em cidadãos de nações como Alemanha, França, Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul e Nova Zelândia. Esses países foram listados por, supostamente, "imporem políticas ideológicas neoliberais destrutivas", segundo a perspectiva russa.

Quem são os beneficiados pelos vistos "antiwoke"?

No ano passado, um total de 1.112 pessoas receberam vistos de entrada através dessa iniciativa. Os dados foram revelados por Alexei Klimov, diretor do Departamento Consular do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, em informação divulgada em 2025 pela Ria Novosti.

Os alemães lideraram a lista dos beneficiários dos vistos "antiwoke", com 168 vistos concedidos. Em seguida, vieram os franceses, com 140 vistos, e os americanos, que ocuparam o terceiro lugar com 105 vistos aprovados no programa que busca atrair adeptos dos valores tradicionais.

Klimov, no entanto, não detalhou quantos desses indivíduos continuam residindo no país. A medida, apelidada pela imprensa ocidental de visto "antiwoke", usa o termo "woke" de forma pejorativa, criticando políticas progressistas.

A defesa dos valores e o convite de Putin

No início deste mês, Vladimir Putin reafirmou seu apoio ao programa, elogiando a iniciativa. Ele destacou a pressão que, segundo ele, tenta abolir os valores familiares tradicionais em diversas nações e fez um convite público aos estrangeiros que buscam refúgio na Rússia.

"Apoiaremos aqueles que, submetidos a esta pressão, decidirem viver, trabalhar e criar seus filhos na Rússia. Sejam bem-vindos", declarou o presidente. Essa retórica visa consolidar a Rússia como um refúgio para quem compartilha dessa visão conservadora.

Desde o início da ofensiva na Ucrânia em 2022, Moscou tem intensificado sua campanha contra as "ideologias nocivas", que atribui ao Ocidente. Essa pauta tem sido central na política interna e externa russa, moldando suas relações internacionais e a percepção interna.

Exemplos dessa postura incluem a proibição completa da "propaganda LGBT" entre adultos em 2022 e o veto a mudanças de gênero legais ou médicas em 2023. Ambas as medidas foram duramente criticadas por organizações de defesa dos direitos humanos, que alertam para o retrocesso de direitos na Rússia sob a bandeira dos valores tradicionais.