Os comerciantes de café acreditam que a safra recorde do Brasil, prevista para atingir 75,3 milhões de sacas na safra 2026/27, poderá aliviar a escassez global de oferta. No entanto, os cafeicultores do maior produtor mundial não têm pressa em vender os grãos, o que mantém o abastecimento nos países consumidores sob pressão e amplia a volatilidade no mercado futuro[5].

Essa dinâmica é alimentada por uma combinação de fatores: a expectativa de uma colheita histórica, estoques mundiais ainda baixos e vendas mais lentas do que o esperado. As bolsas americanas e europeias registram níveis de estoque os mais baixos desde março de 2024, mesmo com a colheita em andamento[5].

Por que os produtores não vendem?

Os cafeicultores geralmente negociam parte da safra futura para cobrir custos de produção e se proteger de oscilações negativas de preços. Contudo, este ano, lucros com as recentes altas do mercado os deixam menos pressionados a vender antecipadamente. Os contratos futuros de arábica atingiram picos históricos acima de US$ 4 por libra em 2024, embora os preços já tenham caído cerca de 40% em relação a esses patamares, criando um desincentivo para novas vendas[5].

“O vento está soprando a favor dos agricultores”, afirmou Simão Pedro de Lima, diretor-presidente da Expocacer, cooperativa do Cerrado Mineiro. “Eles não se sentem pressionados a começar a comercializar a produção”[5].

Dados de comercialização abaixo do esperado

Até 11 de junho, apenas 20,3% dos grãos de arábica esperados na safra atual haviam sido negociados, enquanto as vendas de conilon (robusta brasileiro) estavam em 14%, segundo pesquisa da Safras & Mercado[5]. Em condições normais, os produtores vendem entre 30% e 40% da nova safra de arábica no início da temporada. Já as vendas de conilon no Espírito Santo chegaram apenas a 10%, um terço dos níveis da safra passada e um quarto da média histórica[5].

El Niño e riscos climáticos

O mercado também reage às preocupações com os estoques reduzidos nas bolsas e ao fenômeno climático El Niño, iniciado no começo de 2026. Um El Niño forte pode reduzir as chuvas durante a floração do café (julho a setembro para conilon) e no enchimento dos grãos (novembro a janeiro), como ocorreu entre 2023 e 2024, causando perdas significativas[5].

Carlos Mera, chefe de pesquisa do Rabobank, destaca que o padrão climático, somado às chuvas intensas recentes no cinturão de arábica do Brasil, tem dado suporte aos preços. As janelas de entrega de julho e setembro “provavelmente trarão muita volatilidade” para o mercado futuro[5].

Impacto global e ausência de pânico

A relutância dos produtores em fechar negócios, mesmo com a colheita em andamento, atrasou os fluxos de grandes volumes que o mercado esperava observar. Leonardo Rossetti, analista do StoneX Group, afirma que “não é só o Brasil”: agricultores do Vietnã, maior produtor mundial de robusta, e da Indonésia também adiam vendas devido à queda dos preços[5].

Essa estratégia representa riscos, pois a chegada da safra recorde brasileira em julho e agosto provavelmente pressionará os preços para baixo. Marcelo Moreira, analista da Archer Consulting, conclui: “O café existe… mas talvez demore um pouco mais para navegar. Não há motivo para pânico”[5].

Estimativas da Conab apontam para uma produção de 66,2 milhões de sacas em 2026, enquanto o mercado trabalha com projeções entre 70 e 73 milhões de sacas, com potencial de recorde histórico[1][2].