Um ano após aportar R$ 98 milhões da previdência municipal no Banco Master, o município de São Roque, no interior de São Paulo, autorizou servidores e aposentados a realizarem empréstimos consignados com o Banco Digimais, instituição controlada pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). A decisão foi tomada mesmo com o banco sendo alvo, nesta terça-feira (23/6), da Operação Miragem da Polícia Federal (PF), que bloqueia R$ 670 milhões por suspeitas de fraudes no Sistema Financeiro Nacional[1][2][3].

Os policiais cumpriram nove mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao banco, além de autorizar o congelamento de ativos e a quebra de sigilos bancário e fiscal dos investigados[2][3]. Embora Edir Macedo não tenha sido preso por não residir no Brasil, a Justiça decretou o bloqueio de seus bens e a quebra de seu sigilo financeiro[1][2].

Fraude contábil e manipulação de balanços

A PF investiga a manipulação sistemática de balanços e resultados contábeis para ocultar a real situação econômico-financeira do banco e aparentar solvência perante os órgãos de controle[1][3]. As apurações indicam que o esquema permitiu a supervalorização de ativos e a geração artificial de receitas na casa de centenas de milhões de reais[1][5]. Segundo relatórios do Banco Central, o Digimais registrou em 2025 um índice de Basileia de 7,98%, abaixo do mínimo regulatório de 11%, o que evidencia a fragilidade financeira da instituição[4].

A operação também apura operações financeiras ilegais em benefício da empresa controladora do banco e a possível inserção de informações falsas em sistemas oficiais do regulador[3][5]. Os investigados podem responder por crimes de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e realização de operações de crédito vedadas[3].

Contexto de decisões municipais e ligação com outros casos

Em outubro de 2025, quando São Roque autorizou os empréstimos consignados, os problemas financeiros do banco de Edir Macedo já eram públicos[1]. O contrato tem validade de um ano e, como o valor da prestação é descontado diretamente na folha de pagamento, o crédito consignado costuma ter juros menores que os de mercado[1].

O deputado estadual Paulo Fiorilo (PT-SP) levantou uma série de municípios que autorizaram consignados com o Digimais, incluindo São José do Rio Preto, Tambaú e São Sebastião, todos no interior ou litoral paulista[1]. Ele acredita que os casos estão conectados e que há um padrão de autorização mesmo com a crise do banco evidente desde a pandemia de Covid-19[1].

Meses antes, o Banco Central rejeitou a venda do Digimais para o BlueBank, banco de Maurício Quadrado, ex-sócio do Master e investigado pela PF[1]. A Polícia Militar de São Paulo também foi liberada para operar consignados com o Digimais um mês antes de São Roque, o que abriu uma clientela considerável de mais de 80 mil policiais militares[1].

Repercussão e críticas

A crise do Digimais ficou evidente desde a pandemia, quando o banco passou por problemas de inadimplência. Relatórios técnicos de 2024 e 2025 mostram que o patrimônio da instituição foi corroído e precisou de aportes recorrentes do próprio bispo Edir Macedo para não quebrar[1].

Além disso, o Digimais é acusado de se passar pelo Detran para cobrar clientes, segundo auditoria que apontou risco de rombo em transação de R$ 741 milhões[1]. O MPSP arquivou apuração sobre consignados da PM com o Digimais, e o Governo Tarcísio liberou o banco a operar consignado na PM após a crise[1].

Com a operação da PF, a confiança no banco de Edir Macedo foi severamente abalada, e a decisão de São Roque de autorizar consignados com essa instituição gera questionamentos sobre a segurança dos servidores e aposentados envolvidos[1][2][3].