Empresa japonesa alocou US$ 8 bilhões em fundos dedicados à região, mas agora busca companhias de maior porte e vê cenário mais complexo.
O SoftBank, um dos maiores nomes do venture capital global, está reavaliando drasticamente suas estratégias de investimento na América Latina. A gigante japonesa enfrenta crescentes dificuldades em identificar startups na região que estejam prontas para receber aportes significativos, especialmente acima de US$ 50 milhões.
Essa mudança de postura é um claro indicador do esfriamento do boom tecnológico que impulsionou a região há poucos anos, atraindo volumes recordes de capital. A desaceleração reflete um cenário global de maior cautela e um novo foco dos investidores.
O foco agora se volta para a inteligência artificial, uma área onde a América Latina ainda carece de infraestrutura e talento robustos, conforme informação divulgada por InvestNews – Negócios.
O Fim de um Ciclo e a Busca por Gigantes
O SoftBank, que já canalizou bilhões de dólares para startups na América Latina através de fundos dedicados, agora aponta para um conjunto menor de oportunidades. A empresa busca companhias que atendam aos requisitos de suas operações preferidas, com aportes a partir de US$ 50 milhões.
Alex Szapiro, sócio responsável pelas operações no Brasil, destacou a dificuldade em encontrar startups tão robustas quanto as que surgem na Europa, nos EUA e na Ásia. Ele menciona a escassez de empresas do calibre de uma Anthropic ou OpenAI na região.
Nos últimos dois anos, o SoftBank fechou apenas dois novos negócios na América Latina. Atualmente, um punhado de alvos potenciais está sob avaliação, com foco em empresas de inteligência artificial com dados proprietários e capacidade de competição global.
O Contexto da Desaceleração Regional
A situação atual contrasta fortemente com a enxurrada de capital de risco que inundou a região durante o auge da era da pandemia. Em 2019, o fundador Masayoshi Son vislumbrava a América Latina como uma das regiões econômicas mais importantes do mundo.
A empresa agitou o mercado com um veículo de investimento de US$ 5 bilhões em 2019, adicionando outros US$ 3 bilhões dois anos depois. Contudo, a saída de Marcelo Claure em 2022, após uma disputa salarial, marcou um ponto de virada na estratégia de investimentos.
Kirk Boodry, analista sênior da Bloomberg Intelligence, aponta que a operação do SoftBank na América Latina foi um esforço oportunista ligado a Claure. Com sua partida, os investimentos na região naturalmente perderam destaque dentro do grupo.
O financiamento para startups na América Latina atingiu o pico de US$ 16 bilhões em 2021, mas caiu para US$ 4,3 bilhões em 2025, conforme dados da Lavca. O número de negócios tem diminuído constantemente desde 2022, evidenciando o esfriamento.
Nova Estratégia: IA e Alvos Mais Maduros
Os novos investimentos do SoftBank na região serão financiados pelo Vision Fund, veículo global do grupo. A empresa está mirando companhias de inteligência artificial voltadas ao consumidor, com dados proprietários fortes e equipes de tecnologia globais.
Alex Szapiro também apontou para o ciclo de tecnologia, destacando que muitas das empresas apoiadas durante o boom da década de 2010 já haviam alcançado escala para grandes investimentos. O SoftBank agora está mais cauteloso para investir em startups em estágio inicial.
“Não temos a capacidade de realmente nutrir essas empresas. Foi uma lição que aprendemos do passado, e acho que não vamos cometer o mesmo erro de novo”, afirmou Szapiro. A companhia já alocou todos os US$ 8 bilhões dos seus fundos dedicados à América Latina.
O Legado e o Potencial Latino-Americano
Apesar da mudança estratégica, o SoftBank mantém cerca de 80 empresas em seu portfólio na região, com uma “boa parte” delas pronta para abrir capital quando a janela de mercado permitir. Nomes como Kavak, Rappi, QuintoAndar e Creditas seguem relevantes.
O grupo também participou do IPO do Nubank, que se tornou a maior fintech da região. Contudo, a fatia dos fundos latino-americanos no total de investimentos em ações do SoftBank caiu de cerca de 5% para pouco mais de 2% em três anos, com o foco em IA.
A falta de capacidade em hardware, infraestrutura, um pool menor de talentos e o tamanho do capital disponível em outras regiões são fatores que contribuem para a desaceleração. No entanto, o SoftBank reafirma seu engajamento com o potencial de longo prazo da região.
Laura González-Estéfani, fundadora da TheVentureCity, reforça: “Os ingredientes estão no chão, só precisamos de capital corajoso para voltar”. Ela lembra que o SoftBank foi muito corajoso, mas era liderado por alguém que realmente entendia a região, referindo-se a Marcelo Claure.
