O acordo histórico entre Mercosul e União Europeia, que entrou em vigor provisória em maio de 2026 e abriu um mercado de mais de 700 milhões de consumidores, convive com uma sequência de novas barreiras comerciais impostas pelo bloco europeu contra setores em que o Brasil é altamente competitivo: soja, aço e carne bovina.

As três medidas, com justificativas distintas — excesso de oferta global no aço, risco ambiental na soja e preocupação sanitária na carne bovina —, surgiram no mesmo intervalo em que o bloco, teoricamente, destravava as portas pelo novo pacto. Em 9 de janeiro, os 27 países da UE chancelaram o acordo, após a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, acalmar agricultores europeus que protestavam há mais de um ano contra a concorrência de produtos sul-americanos.

A barreira de efeito mais duradouro recai sobre a soja, segundo principal produto da pauta de exportação brasileira. Em 10 de abril, a Comissão Europeia classificou o óleo de soja como matéria-prima de alto risco de mudança indireta no uso da terra (iLUC), com cálculo de 14,1% de desmatamento indireto. A partir de 2030, o óleo de soja não contará para as metas europeias de combustível renovável. A indústria brasileira, representada pela Abiove, contesta a metodologia, alegando que o estudo compara períodos diferentes (2008-2021 para desmatamento e 2014-2021 para expansão total), o que gera um índice de desmatamento mais intenso do que o real. Se recalculado com o mesmo intervalo, a soja ficaria abaixo de 10%, retirando-a da classificação de alto risco.

No setor de aço, o Parlamento Europeu endureceu a salvaguarda do metal em maio. A nova regra, que entra em vigor em 1º de julho, corta a cota livre de imposto em 47% (para 18,3 milhões de toneladas/ano) e dobra a tarifa sobre o que ultrapasse esse limite (de 25% para 50%). O Brasil é o segundo maior fornecedor de aço da Europa, com vendas de cerca de US$ 1,9 bilhão ao bloco.

Quanto à carne bovina, restrições sanitárias foram impostadas pela UE, justificadas por exigências de segurança alimentar e controle de substâncias na produção pecuária. O bloqueio, que entra em vigor em setembro, atinge também frango, pescado, ovos e outros derivados, e dentro do Mercosul só o Brasil saiu da lista de permissão.

"Se você me perguntar se essas barreiras são por causa do acordo, eu não posso afirmar isso categoricamente. Mas qualquer um que ver essa cadeia de eventos, vai perceber que não é mera coincidência", afirmou uma fonte ouvida pelo InvestNews que acompanha as conversas em Bruxelas e Brasília. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil já conduziu contatos técnicos e diplomáticos para contestar as metodologias e conclusões europeias, argumentando que os preços menores dos produtos sul-americanos refletem eficiência, não descumprimento de normas ambientais ou sanitárias.

A UE sugeriu a criação de uma certificação de baixo risco de desmatamento para a soja, mas a indústria brasileira considera as exigências tão complexas e caras que poucos conseguiriam atendê-las. "Na prática, a União Europeia lavou as mãos desse assunto", disse André Nassar, presidente-executivo da Abiove.

Até US$ 9 bilhões a mais no PIB: o impacto positivo do acordo Mercosul-UE para o Brasil pode ser impactado por esses novos regulamentos que alteram substantivamente as condições de acesso ao mercado europeu.