Decisões cruciais do Federal Reserve e Copom nesta ‘superquarta’ marcam mudança de rumo nos juros e enfrentam desafios de inflação global.
A aguardada “superquarta” de hoje promete chacoalhar os mercados financeiros globais, com as decisões de política monetária nos Estados Unidos e no Brasil. Este dia vai oficializar uma clara mudança de rumos para as taxas de juros, tanto lá fora quanto em território nacional.
O cenário é de inflação em ascensão e expectativas de preços futuros descoladas da referência. Isso tem levado os mercados a incorporar projeções financeiras mais rigorosas. Bancos centrais globais como o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japão (BoJ) já reagiram, subindo os juros nas últimas semanas.
Agora, a atenção se volta para o Federal Reserve (Fed), o BC americano, e o Copom, com investidores esperando sinalizações semelhantes. A reunião do Fed, em particular, ganha um elemento extra: é a primeira sob o comando do novo presidente, Kevin Warsh, indicado por Donald Trump, conforme informação divulgada por InvestNews – Investimentos.
O Desafio do Novo Fed: Kevin Warsh sob Pressão
A estreia de Kevin Warsh na presidência do Fed acontece em um momento delicado. Ele já enfrenta pressão política para a redução de juros. No entanto, o consenso quase absoluto do mercado aponta que o Fomc, comitê de decisões de juros, manterá as taxas inalteradas, na faixa entre 3,50% e 3,75%.
Ainda assim, a reunião deve formalizar uma importante sinalização: a perspectiva de um corte de juros em 2026 saiu da mesa. A inflação nos EUA, medida pelo CPI, já atinge 4,2% em 12 meses até maio. Isso tem levado o mercado a antecipar uma possível alta de juros já em dezembro.
A grande questão é como Warsh conciliará as expectativas políticas com as necessidades técnicas de combate à escalada de preços ao consumidor. Uma possibilidade é a de focar em uma redução expressiva do balanço do Fed, mantendo os juros inalterados por mais tempo.
Aperto Quantitativo: A Estratégia de Warsh?
A ideia de Warsh pode ser intensificar o “aperto quantitativo”, o nome técnico para o enxugamento do nível de ativos acumulados pela autoridade monetária. Analistas esperam que ele defenda uma redução mais agressiva do balanço, que ainda soma cerca de US$ 6,7 trilhões.
Desinflar esse portfólio funciona como um aperto das condições financeiras. Retira dinheiro de circulação, ou seja, reduz a liquidez no mercado. Isso ocorre porque o Fed deixa de reaplicar os recursos recebidos de títulos vencidos em novos papéis.
O banco central pode até mesmo passar a vender as Treasuries de seu balanço, se optar por um movimento mais agressivo. O acúmulo de títulos e outros ativos no balanço do Fed ocorreu para enfrentar desequilíbrios, como na crise bancária de 2008 e durante a pandemia.
Em 2022, por exemplo, o Fed detinha US$ 8,5 trilhões em papéis. A autoridade iniciou um ciclo de redução cautelosa dessa carteira, diminuindo cerca de US$ 2 trilhões até o fim de 2025. A perspectiva agora, com Warsh, é retomar o aperto quantitativo de forma mais assertiva.
Contudo, este tema está longe de ser um consenso dentro do próprio Fed. O novo “chairman” poderá encontrar dificuldades em seguir essa linha, especialmente se atrelar o aperto quantitativo à condução direta do combate à inflação.
O Dilema do Copom: Influência Externa e Pressões Domésticas
O potencial reposicionamento do Fed tem ramificações diretas sobre os mercados emergentes, incluindo o Brasil. Uma postura mais inclinada ao aperto monetário nos EUA, mesmo sem subida de taxas, pode afetar o fluxo de capital estrangeiro para o país.
Com o Fed sinalizando juros altos por tempo prolongado, a atratividade dos títulos do Tesouro americano (Treasuries) aumenta. Isso tende a desviar recursos globais para os EUA, significando menos dólares ingressando no Brasil. Este movimento, por sua vez, pressiona a desvalorização do real.
Um câmbio depreciado atua como um choque de custos para a economia brasileira, encarecendo bens industriais e insumos importados. Na prática, um dólar mais forte traz mais inflação e reduz a margem de manobra do Banco Central do Brasil para reduzir a Selic.
Este ambiente já vive pressões de alta nos preços, com a escalada dos combustíveis e de insumos como fertilizantes e commodities metálicas, especialmente após a Guerra no Irã. O cenário externo e interno, portanto, é desafiador para o Copom.
Selic em Questão: Corte Pontual e Perspectivas Futuras
Mesmo diante de forte restrição externa e pressões domésticas, o consenso para a decisão do Copom nesta quarta-feira é de corte de 0,25 ponto percentual. A Selic deve cair para 14,25% ao ano, conforme amplamente esperado pelo mercado.
A partir daí, as projeções se tornam mais incertas. Mesmo com “gordura” para cortar, investidores e agentes do mercado enxergam cada vez menos espaço para uma queda mais acentuada dos juros básicos. Diversas casas de análise têm revisado para cima o nível da Selic para 2026.
O Bank of America, por exemplo, projeta a taxa básica em 14,25% no fim do ano. Outras instituições, como BNP Paribas, XP e Banco Pine, veem os juros em 14%. O mais recente Relatório Focus do BC, que reúne projeções financeiras, mostrou uma alta nas previsões para a Selic pela segunda semana seguida.
Às vésperas da reunião do Copom, o mercado elevou a expectativa da taxa para 13,75% no fim deste ano. A decisão desta quarta-feira, portanto, será cuidadosamente acompanhada. Não apenas pelo corte esperado, mas principalmente pela comunicação do BC. A sinalização será de uma pausa imediata no ciclo de afrouxamento ou de possibilidade de ao menos mais um corte à frente?
