A bordo do veleiro Sardinha 2, a velejadora brasileira encarou uma mudança de data no meio de sua jornada solo do Alasca ao Atlântico.
A velejadora brasileira Tamara Klink, de 29 anos, vive uma experiência única em alto-mar, velejando sozinha pelo Mar de Bering. Atualmente a bordo do veleiro Sardinha 2, ela cumpre uma rota desafiadora que conecta o Alasca ao Atlântico, enfrentando o isolamento e as tempestades sem comunicação convencional.
No último dia 14 de agosto, Tamara compartilhou um vídeo marcante, registrando um dos pontos altos de sua travessia: a aproximação e o cruzamento da Linha Internacional de Data. Esse feito gerou uma consequência inesperada para a navegadora: a alteração imediata de um dia em seu calendário.
“Quando eu cruzar essa linha, vou deixar de navegar no ontem e vou passar imediatamente para amanhã, 21 horas mais tarde”, declarou a velejadora em seu vídeo. Mas o que exatamente representa essa linha imaginária e como ela impacta a contagem do tempo global?
O que significa a Linha Internacional de Data na navegação?
A Linha Internacional de Data é uma marcação imaginária essencial para a organização do calendário mundial. Ela está localizada majoritariamente sobre o meridiano de 180 graus, no vasto Oceano Pacífico, e é o ponto onde ocorre a mudança oficial de um dia para o outro no planeta.
Essa linha funciona como um contraponto ao meridiano de Greenwich, que estabelece o horário de referência global. A sua travessia tem um efeito direto na data do calendário, que é uma convenção humana. A oceanógrafa Raquel Avelina, pesquisadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ) e apoiada pelo Instituto Serrapilheira, explica que “ao cruzá-la de oeste para leste, volta-se um dia; no sentido oposto, avança-se um dia”.
O professor Edmo Campos, membro titular da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), reforça que o meridiano de 180 graus atua como a fronteira para essa significativa mudança de data em escala global, impactando viajantes e, especialmente, navegadores.
A complexidade da marcação de tempo e seus desvios geográficos
Embora pareça um limite simples no mapa, a Linha Internacional de Data não segue um traçado perfeitamente reto. Ela apresenta desvios estratégicos para evitar que países e arquipélagos sejam divididos em datas diferentes, o que causaria confusões logísticas e administrativas.
“Se fosse uma linha reta, regiões vizinhas poderiam estar em dias distintos, o que dificultaria atividades comerciais e administrativas”, afirma o professor Edmo Campos. Ele cita o exemplo de Kiribati, um país insular que ajustou seus fusos horários para garantir que todo o seu território permanecesse no mesmo dia, facilitando a vida de seus habitantes.
Essa adaptação do traçado da Linha Internacional de Data mostra a importância de conciliar as convenções temporais com as realidades geográficas e sociais, garantindo a coesão no sistema de data global.
Impacto da Linha Internacional de Data na navegação moderna
Atualmente, atravessar essa linha imaginária não representa um obstáculo técnico significativo para quem navega, graças aos avanços tecnológicos. Com o uso do GPS e dos modernos sistemas de posicionamento, o principal efeito da travessia é a simples, mas crucial, mudança no calendário do viajante.
Ainda assim, a orientação tradicional permanece fundamental em alto-mar. “Hoje é difícil ter problemas de navegação, mas o uso da bússola segue sendo fundamental”, ressalta a oceanógrafa Raquel Avelina. Em regiões remotas como o Ártico, onde as condições climáticas e geográficas já são um desafio, a travessia da linha serve mais como um ajuste de referência de tempo do que uma complicação operacional para o velejador.
Tamara Klink: uma vida dedicada às travessias e ao mar
Filha do renomado navegador Amyr Klink, Tamara cresceu imersa no universo da navegação. Desde muito jovem, participou de expedições familiares, o que moldou sua paixão pelo mar. Ela, suas irmãs Laura e Marina Helena, inclusive, publicaram o livro Férias na Antártica, inspirado nas viagens que fizeram juntas ao continente gelado.
Na vida adulta, Tamara Klink consolidou sua trajetória com travessias solo e expedições próprias. Em 2020 e 2021, cruzou o Atlântico na rota entre Noruega e Brasil. Em 2023, encarou uma nova travessia solo, desta vez da França à Groenlândia, e passou um inverno isolada no Ártico, experiência detalhada em seu livro Bom dia, Inverno, um best-seller lançado em maio de 2026.
Em 2025, Tamara fez história ao se tornar a primeira brasileira a cruzar sozinha a Passagem Noroeste, percorrendo cerca de 6,5 mil quilômetros entre a Groenlândia e o Alasca. Sua determinação e habilidade a tornam uma referência no cenário da navegação internacional, seguindo e expandindo o legado familiar.
Perguntas Frequentes
Onde fica a Linha Internacional de Data?
A Linha Internacional de Data está localizada em grande parte sobre o meridiano de 180 graus, no Oceano Pacífico. Ela foi desenhada com desvios para evitar dividir países e arquipélagos em dias diferentes.
Qual a função da Linha Internacional de Data?
A principal função da Linha Internacional de Data é marcar a mudança oficial de um dia para o outro no calendário global, servindo como uma referência para a organização do tempo no planeta.
O que acontece ao cruzar a Linha Internacional de Data?
Ao cruzar a Linha Internacional de Data, o calendário do viajante é alterado. De oeste para leste, volta-se um dia; de leste para oeste, avança-se um dia, como ocorreu com Tamara Klink em sua travessia.
Quem é Tamara Klink?
Tamara Klink é uma velejadora brasileira, filha de Amyr Klink, conhecida por suas expedições solo e por ser a primeira brasileira a cruzar sozinha a Passagem Noroeste. Ela já publicou livros sobre suas experiências no mar.
Como o GPS afeta a navegação na Linha Internacional de Data?
Com o avanço do GPS e de sistemas de posicionamento, o cruzamento da Linha Internacional de Data não representa um obstáculo técnico para a navegação. O principal efeito hoje é a alteração no calendário, enquanto a bússola continua importante para orientação.
