Uma nova pesquisa internacional reacendeu o debate sobre o destino do universo ao contestar conclusões que colocavam em dúvida uma das principais teorias da cosmologia moderna. Publicado neste mês na revista científica Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, o estudo reforça que o universo continua se expandindo de forma acelerada, como apontam as medições aceitas pela comunidade científica há mais de duas décadas[1]. A resposta da comunidade científica não demorou: uma nova análise publicada em meados de junho refuta o estudo anterior de 2025 e reforça o modelo cosmológico padrão por meio de uma análise mais abrangente[3].
Em comunicado da própria universidade, o autor principal, Phil Wiseman, da Universidade de Southampton, no Reino Unido, afirma: "As medições anteriores, amplamente aceitas, estavam de fato corretas, e nossa compreensão atual sobre o destino do universo continua sólida"[3]. O astrofísico Brodie Popovic, também da Universidade de Southampton, complementa: "O universo continua se acelerando. Ainda há muito que não sabemos e que nos entusiasma aprender, mas acreditamos que estamos no caminho certo"[1].
Supernovas: os marcadores de tamanho do cosmos
Para determinar o ritmo da expansão, a equipe internacional – que inclui dois ganhadores do Nobel, Adam Riess e Brian Schmidt, vencedores do Prêmio Nobel de Física de 2011[2] – recorreu às supernovas do tipo Ia. Essas poderosas explosões estelares ocorrem quando uma anã branca, remanescente de uma estrela de massa pequena ou média, colapsa sobre si mesma ao fim de seu ciclo de vida[3]. Como essas explosões apresentam praticamente a mesma luminosidade intrínseca, são fenômenos extremamente valiosos para medir distâncias no espaço profundo[3]. Seu brilho aparente varia de acordo com a distância até a Terra, mais intenso quando está próxima e mais fraco à medida que se afasta, funcionando como verdadeiros marcos de referência na imensidão do universo[3]. Ao analisar essa luz, os pesquisadores conseguem estimar a velocidade da expansão cósmica em diferentes períodos da história do universo[3].
O debate sobre o "efeito da idade"
Astrônomos estimam que o universo é composto por apenas 5% de matéria comum (estrelas, planetas e gás), 27% de matéria escura e impressionantes 68% de energia escura[3]. O estudo contestado de 2025 sugeriu que a energia escura estaria perdendo força e que as medições das supernovas precisariam considerar com mais peso a idade das estrelas que originam essas explosões, um fenômeno chamado "efeito da idade"[1]. Os autores do estudo de 2025 argumentaram que as distâncias das supernovas deveriam ser calibradas de outra forma, levando em conta a idade das estrelas que acabam explodindo, e que esse "efeito da idade" poderia alterar de maneira significativa as evidências da aceleração[3].
No entanto, os pesquisadores do novo estudo identificaram falhas metodológicas no estudo de 2025[2]. Segundo eles, o grupo anterior interpretou incorretamente fatores relacionados à idade das galáxias hospedeiras das supernovas, assumindo que essa idade equivalia à das estrelas que originaram as explosões[2]. Além disso, o estudo anterior não considerou adequadamente ajustes referentes à massa dessas galáxias, procedimento padrão em cosmologia observacional[2]. "Não encontramos evidências do suposto 'efeito da idade' nas maiores amostras calibradas de supernovas utilizadas pela comunidade cosmológica na última década", afirmou Adam Riess, coautor do novo estudo e astrofísico da Universidade Johns Hopkins[3].
Argumentos e respostas
Young-Wook Lee, da Universidade Yonsei, em Seul, na Coreia do Sul, e líder do estudo contestado, defende suas conclusões ao afirmar que o novo estudo apresenta "falhas metodológicas graves ou chega a conclusões que são internamente inconsistentes segundo sua própria lógica"[3]. Apesar das críticas, os autores da pesquisa mais recente demonstraram plena confiança em seus métodos e sustentam que a aceleração do universo é um fato incontestável[3].
A energia escura ainda é um mistério
Ainda assim, a natureza física da energia escura permanece desconhecida[3]. O Observatório Vera C. Rubin, no Chile, e o futuro Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, cujo lançamento está previsto para agosto, podem trazer respostas importantes[3]. "Esperamos que os novos dados obtidos com o Vera Rubin e com o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman nos ajudem a entender melhor o que é, de fato, a energia escura", conclui Popovic[3]. A nova pesquisa, porém, descobriu que o erro estava na forma como a idade dessas estrelas era estimada[5]. A análise provou que as descobertas anteriores assumiam incorretamente que a idade de uma galáxia era a mesma da estrela que explodiu[5]. O artigo de 2025 também não considerou a massa das galáxias hospedeiras, uma correção padrão usada na cosmologia moderna[5].
