A estudante de psicologia Claudia Pernambuco ignorou os primeiros sinais que, meses depois, revelariam a gravidade da doença. Entenda os sintomas silenciosos.

Em 2019, a vida da estudante de psicologia Claudia Pernambuco, de 58 anos, foi virada do avesso por uma série de dores abdominais e cólicas. O que parecia ser um simples desconforto intestinal ou algo relacionado à alimentação, meses mais tarde, se confirmaria como um diagnóstico devastador: câncer de ovário em estágio avançado.

A princípio, os sintomas foram negligenciados por Claudia, que vivia um período delicado com a recuperação de uma de suas filhas após um grave acidente aéreo. As "dores eram cólicas esporádicas e suportáveis", conforme ela mesma recorda, e a prioridade era o bem-estar familiar.

No entanto, a persistência e a intensificação do desconforto, que começou a alterar a rotina e a postura de Claudia, indicaram a necessidade de uma investigação mais profunda. A jornada que se seguiu revelou a natureza traiçoeira da doença, muitas vezes diagnosticada apenas em fases mais graves.

Sinais Ignorados: O Diagnóstico de Câncer de Ovário Avançado

A história de Claudia Pernambuco não é isolada. Segundo a oncologista Maria Del Pilar Estevez Diz, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), o atraso no diagnóstico é comum para o câncer de ovário. A especialista explica que a doença é "conhecida por ser silenciosa" e, quando os sintomas se manifestam, geralmente já está em estágio mais avançado.

Dados médicos revelam que entre 70% e 80% dos diagnósticos de câncer de ovário ocorrem nas fases III ou IV, o que sublinha a dificuldade de identificação precoce. Essa realidade faz com que a atenção aos menores sinais seja crucial para a saúde feminina.

Após a percepção de que a dor estava se tornando um problema sério, Claudia buscou ajuda médica. Uma bateria de exames, incluindo colonoscopia, análises de sangue e ressonância, indicou uma alteração no ovário, culminando no encaminhamento para um especialista em oncologia.

Câncer de Ovário: Sintomas que Merecem Atenção Constante

Os sinais do câncer de ovário frequentemente se assemelham a problemas gastrointestinais ou ginecológicos corriqueiros, o que complica a detecção inicial. Contudo, alguns alertas devem ser observados com rigor para um diagnóstico em tempo hábil.

Entre os sintomas mais comuns que pedem investigação estão: dor abdominal persistente, sensação de estufamento, aumento do volume da barriga, alterações no funcionamento intestinal e desconforto na região pélvica. É fundamental que, se esses sinais persistirem por mais de três semanas, uma avaliação médica seja procurada imediatamente.

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) destaca a importância da identificação precoce de qualquer tipo de tumor. O câncer é uma das principais causas de morte no mundo, e quanto antes for descoberto, maiores são as chances de sucesso no tratamento e recuperação do paciente.

A Luta e a Adaptação ao Tratamento do Câncer

A confirmação do câncer de ovário para Claudia chegou de forma inesperada, durante um jantar em família no período da pandemia. Ela lembra do silêncio inicial, mas sua resiliência logo se fez presente: "Eu disse que não ia ser daquele jeito. Que a gente precisava falar sobre tudo. A vida precisava continuar".

O tratamento começou no dia seguinte à avaliação com o oncologista, envolvendo quimioterapia e cirurgia. Durante essa fase desafiadora, Claudia priorizou seu conforto, tomando decisões pessoais como a de não se preocupar com a queda do cabelo. "Para mim, não tinha problema ficar careca. Eu queria passar por aquilo da forma mais confortável possível", declarou.

A família foi um pilar de apoio, acompanhando cada etapa. Claudia descreve o período como uma adaptação: "No começo foi difícil até acertar as medicações. Depois, fui entendendo como meu corpo reagia. Eu simplesmente seguia uma etapa de cada vez". No entanto, o caminho não foi sem obstáculos.

Após a cirurgia, ela enfrentou complicações como uma hemorragia interna e trombose no braço, estendendo a internação por cerca de um mês. Mais tarde, uma aderência intestinal exigiu nova internação e cirurgia, mostrando a complexidade da recuperação.

O Papel da Genética e a Nova Perspectiva de Vida

Durante o tratamento, um exame genético de Claudia identificou uma mutação no gene BRCA2. A oncologista Maria Del Pilar Estevez Diz salienta que essas alterações genéticas são significativas: "Entre 14% e 20% das mulheres com câncer de ovário apresentam mutações nos genes BRCA1 ou BRCA2. Essas pacientes podem se beneficiar de terapias específicas".

A médica explica que o tratamento do câncer de ovário, especialmente em estágios avançados, combina diversas estratégias, como cirurgia, quimioterapia e, em certos casos, medicamentos direcionados. O objetivo é sempre aumentar as chances de controle da doença.

Com a melhora e o avanço do tratamento, a frequência das consultas de Claudia foi reduzida. Hoje, ela mantém o acompanhamento e reflete sobre a transformação em sua vida. "Antes, eu estava voltada para cuidar dos outros. Hoje, continuo cuidando da minha família, mas também entendo que preciso me colocar como prioridade. Naquele momento, minha filha precisava de mim. Hoje, eu tenho mais espaço para me escutar", conclui.

Perguntas Frequentes

Quais são os principais sintomas do câncer de ovário?

Os sintomas mais comuns do câncer de ovário incluem dor abdominal persistente, sensação de inchaço ou estufamento, aumento do volume da barriga, alterações nos hábitos intestinais e desconforto na região pélvica. Esses sinais podem ser confundidos com outras condições.

Por que o câncer de ovário é considerado uma doença silenciosa?

É chamado de "silencioso" porque seus sintomas iniciais são frequentemente inespecíficos e leves, semelhantes aos de problemas comuns do dia a dia, como má digestão ou problemas menstruais. Isso dificulta o diagnóstico precoce, levando a descobertas em estágios mais avançados.

Quando devo procurar um médico se suspeitar de câncer de ovário?

É crucial procurar atendimento médico se os sintomas como dor abdominal, estufamento ou desconforto pélvico persistirem por mais de três semanas. A investigação desses sinais é fundamental para um diagnóstico precoce e um tratamento eficaz.

O que são os genes BRCA1 e BRCA2 e qual sua relação com o câncer de ovário?

Os genes BRCA1 e BRCA2 são responsáveis por produzir proteínas que ajudam a reparar o DNA danificado. Mutações nesses genes aumentam significativamente o risco de desenvolver câncer de ovário e mama. Pacientes com essas mutações podem se beneficiar de terapias-alvo específicas.

Existe cura para o câncer de ovário, mesmo em estágio avançado?

A cura do câncer de ovário, especialmente em estágio avançado (III ou IV), é desafiadora, mas possível em alguns casos. O tratamento geralmente envolve uma combinação de cirurgia, quimioterapia e, por vezes, terapias direcionadas, visando o controle da doença e a melhora da qualidade de vida.