Pesquisa Anbima-Datafolha aponta que o mercado financeiro já adota IA em larga escala, mas desafios persistem na medição de resultados e na governança da tecnologia.
A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser uma promessa futurista para se integrar à rotina do mercado financeiro brasileiro. Uma pesquisa recente, conduzida pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em parceria com o Datafolha, aponta que impressionantes 92% das empresas do setor já incorporam alguma forma de IA em suas operações.
O estudo, intitulado “Inteligência Artificial no mercado de capitais brasileiro” e divulgado em 1º de setembro, ouviu 177 instituições financeiras. Apesar do reconhecimento geral sobre o potencial transformador da IA e a identificação de valor gerado, a quantificação desse impacto ainda é uma barreira significativa para a maioria.
Mesmo com 67% dos respondentes já utilizando IA generativa, a aplicação da tecnologia se concentra em usos mais táticos, especialmente em processos internos e no chamado backoffice, que oferece suporte operacional às transações. Essa abordagem inicial sugere um foco em otimização de tarefas repetitivas e de alto custo.
IA no Backoffice: Onde a Transformação Começa
O ponto de partida para a adoção da Inteligência Artificial no mercado financeiro tem sido, predominantemente, as áreas de suporte. Marcelo Billi, superintendente de sustentabilidade, inovação e educação da Anbima, destacou essa tendência durante um encontro da Rede Anbima de Inovação.
Segundo Billi, a prioridade dada ao backoffice, compliance e outras atividades repetitivas reflete uma "grande dor" do setor. “Todo mundo começa pelo backoffice. Discutindo com as assets, essa é a grande dor de todo mundo, backoffice, compliance, todo esse conjunto de atividades que precisamos fazer, repetitivas, e que tem um custo de observância alto para o nosso mercado, especificamente”, explicou.
Apesar de o uso ser vasto, a maioria das empresas ainda explora projetos piloto e experimentações. Oito em cada dez instituições financeiras participaram de alguma atividade relacionada à IA no último ano, com 69% delas envolvidas em projetos exploratórios, como provas de conceito e iniciativas de desenvolvimento.
Desafios da Governança e Medição de Valor da IA
Apesar do entusiasmo e da ampla adoção, o mercado financeiro brasileiro enfrenta um obstáculo crucial: a falta de infraestrutura robusta para a governança da IA. Marcelo Billi ressaltou que apenas 12% das empresas possuem uma estrutura sólida para governança, controles e avaliação de risco de modelos de IA.
Essa carência inclui a governança de dados e o uso responsável da Inteligência Artificial, que são fundamentais para garantir a segurança e a conformidade regulatória. “Poucas instituições responderam que têm tudo isso montado, estruturado e preparado para usar no dia a dia”, pontuou Billi, sublinhando a dificuldade em gerar e mensurar valor de forma consistente.
A pesquisa ainda revela que 39% dos participantes avaliam a importância atual da IA com nota 9 ou 10, com uma média geral de 7,39. Para 59% das empresas, a relevância da IA cresceu significativamente nos últimos 12 meses, e 63% esperam um aumento ainda maior nos próximos. Esse cenário de alta expectativa e baixa governança acende um alerta sobre a necessidade de maior maturidade na gestão da tecnologia.
Inovação em Bancos e Fintechs com IA
Grandes players do mercado financeiro já demonstram estratégias claras para a IA. Fernando Galdi, superintendente de Estratégia e Inovação do Bradesco, relatou que o banco trata a IA como tema prioritário. A Bradesco Asset, por exemplo, possui uma governança específica para seus casos de uso e aplicações de IA.
Na gestão de recursos, a preocupação central é assegurar que a informação processada pela IA seja consistente, confiável e rastreável, dada a lógica de “informação e decisão”. Galdi ilustrou: “Imagine que eu crie um agente que todo dia pela manhã lê as principais notícias de mercado e chega a uma conclusão de como aquelas notícias impactam a carteira do meu cliente. O que quero dizer com consistência? Se eu colocar o agente para ler dez vezes as notícias de mercado, primeiro ele tem que selecionar o conjunto de notícias reconhecido, e tem que chegar em dez respostas iguais”.
A fintech Liqi também se destaca, criando o “agente cérebro” em janeiro. Daniel Coquieri, CEO da Liqi Digital Assets, explicou que o objetivo era unificar o contexto de IA entre as áreas da companhia para aumentar a produtividade. A Liqi, uma securitizadora regulada pela CVM, busca agora licença de Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (PSAV) pelo Banco Central.
Combate à Fraude Financeira com Inteligência Artificial
No Nubank, a mentalidade é “AI first”, com foco em dados e talentos. Raíssa Moura, chefe de assuntos digitais da instituição, enfatiza a responsabilidade e a segurança no uso da IA, especialmente para decisões de crédito e fraude que impactam diretamente a vida das pessoas.
A executiva alerta que a IA agênica e a IA generativa trazem desafios adicionais de transparência e explicabilidade em sistemas complexos. Por isso, a recomendação é não priorizar apenas a velocidade na adoção da IA, mas garantir segurança, controle de acesso, qualidade dos dados e a origem das informações acessadas.
A mesma Inteligência Artificial que é usada por fraudadores em golpes cada vez mais sofisticados, também é uma poderosa ferramenta para a prevenção. O Nubank, por exemplo, investe constantemente na melhoria de seus modelos e na criação de camadas de proteção que analisam situações para identificar golpes antes que aconteçam, reforçando a segurança dos clientes.
Perguntas Frequentes
Qual o nível de adoção de IA no mercado financeiro brasileiro?
A pesquisa Anbima-Datafolha aponta que 92% das empresas do mercado financeiro brasileiro já utilizam alguma forma de Inteligência Artificial em suas operações, indicando uma ampla incorporação da tecnologia no setor.
Por que as empresas financeiras têm dificuldade em medir resultados da IA?
A dificuldade reside principalmente na carência de infraestrutura para governança de dados, controles e avaliação de riscos de modelos de IA. Apenas 12% das empresas possuem essa estrutura, dificultando a quantificação do valor gerado pela tecnologia.
Quais são os principais usos da IA no setor financeiro atualmente?
O uso da IA no mercado financeiro concentra-se principalmente em aplicações táticas, processos internos e backoffice, como suporte operacional às transações e compliance. Além disso, há forte investimento em prevenção e detecção de fraudes.
Como a IA ajuda na prevenção de fraudes financeiras?
Instituições como o Nubank utilizam a IA para criar camadas de proteção que analisam padrões e situações em tempo real, permitindo identificar e prevenir golpes mais sofisticados antes que eles afetem os clientes, melhorando a segurança das operações financeiras.
