À frente da ONU, António Guterres enfrentou pandemia, guerras e Donald Trump, dividindo opiniões sobre sua capacidade de mediar conflitos e o futuro da instituição.

António Guterres, ex-premiê de Portugal, encerra seu segundo e último mandato como Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em 31 de dezembro. Aos 77 anos, o líder português navega seus meses finais em um período conturbado, com seu legado já em intensa discussão e opiniões divergentes sobre sua performance em uma década de turbulência global.

Durante seus dois mandatos, Guterres esteve à frente da organização em momentos de crises sem precedentes. Ele lidou com a pandemia de Covid-19, as guerras na Ucrânia e em Gaza, o agravamento da emergência climática e as complexas relações com as duas administrações de Donald Trump, notório crítico do multilateralismo, princípio fundamental da ONU.

Apesar da percepção de azar, críticos e admiradores divergem sobre a sua gestão. Enquanto uns o descrevem como um homem sem “pulso firme” na mediação de conflitos, outros o enxergam como um líder visionário que, acima de tudo, conseguiu manter a estrutura da ONU funcional em tempos de extrema dificuldade financeira e política.

O peso das crises globais na gestão Guterres

Os últimos anos da gestão de Guterres foram marcados por uma sequência implacável de eventos globais que testaram a capacidade de resposta da ONU. A intensificação dos conflitos ao redor do mundo, o maior número desde a Segunda Guerra Mundial, colocou em xeque o papel de mediação do Secretário-Geral.

Diplomatas ouvidos pela reportagem apontam que Guterres teria se afastado do papel de mediador ativo em um momento crucial. Ele, por exemplo, não mantém diálogo com a Rússia desde que condenou publicamente a invasão da Ucrânia. Da mesma forma, sua relação com Israel foi severamente abalada após críticas às agressões em Gaza, culminando em sua declaração como persona non grata pelo Ministério da Defesa israelense, o que o impede de entrar no país.

Paralelamente, a ONU enfrentou uma grave crise orçamentária que forçou cortes significativos na assistência humanitária e em operações de paz. No ano passado, a ajuda foi reduzida em 35% no Sudão do Sul, 30% na Ucrânia e 18% no Haiti, mesmo em contextos de grande necessidade social, conforme dados da fonte.

Visão visionária ou manutenção da estrutura da ONU?

Entre os defensores de Guterres, o consenso é que sua maior contribuição foi a capacidade de manter a ONU e seus diversos braços operacionais, mesmo diante de um cenário de adversidades sem precedentes. Richard Gowan, diretor de assuntos e instituições globais da consultoria Crisis Group, acompanha a ONU há mais de duas décadas e afirma que “talvez o maior legado de Guterres seja o fato de a ONU continuar em funcionamento”.

Gowan ainda prevê que Guterres poderá ser reconhecido como visionário no futuro, especialmente por seu esforço em levar o tema da inteligência artificial (IA) a sério entre os membros da organização. O debate sobre os prós e contras do avanço tecnológico foi uma das grandes apostas do líder português.

A embaixadora Maria Luiza Viotti, ex-chefe de gabinete de Guterres e atualmente em Washington, reforça essa visão. Ela destaca que Guterres “sempre buscou a mediação e o desenvolvimento de iniciativas para fazer avançar o diálogo e a negociação diplomática” e colocou “a ação climática no centro da agenda internacional”, mobilizando governos, setor privado e sociedade civil para compromissos mais ambiciosos na transição energética.

A defesa de Guterres e o caminho para a sucessão na ONU

Apesar das críticas, Guterres utilizou comentários públicos e entrevistas para rebater as acusações de inação. Ele lembrou sua atuação na coordenação da iniciativa de grãos no mar Negro, em 2022, que permitiu o escoamento da produção agrícola ucraniana em meio aos ataques russos. Mais recentemente, viajou ao Chipre para relançar o diálogo e tentar reativar o processo de paz e reunificação da ilha dividida.

Além de sua atuação em crises, Guterres também se destacou como um defensor da reforma do Conselho de Segurança da ONU, uma bandeira antiga do Brasil, para ampliar o número de membros permanentes. Ele também iniciou reformas internas na organização, como o projeto ONU80, que visa reorganizar braços da instituição e revalorizar o multilateralismo.

A campanha para a sucessão de Guterres ainda é incerta, dependendo do consenso entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (EUA, China, Rússia, França e Reino Unido). Há um amplo esforço para que a próxima Secretária-Geral seja uma mulher, a primeira após nove homens no cargo. Embora Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile e apoiada pelo Brasil, tenha desistido da disputa, não há uma data precisa para a eleição. Em caso de complicações na escolha, especula-se até a possibilidade de Guterres ser convidado a permanecer por mais alguns meses.

Perguntas Frequentes

Quando termina o mandato de António Guterres na ONU?

O segundo e último mandato de António Guterres como Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) está previsto para terminar em 31 de dezembro.

Quais foram os principais desafios enfrentados por Guterres?

António Guterres enfrentou crises como a pandemia de Covid-19, as guerras na Ucrânia e em Gaza, o avanço da emergência climática e o relacionamento com as administrações de Donald Trump, que criticavam o multilateralismo.

O que se sabe sobre a sucessão de Guterres na ONU?

Ainda não há uma data precisa para a eleição do sucessor de Guterres, que depende do consenso dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança. Há um forte movimento para que a próxima Secretária-Geral seja uma mulher.

Qual o principal legado de António Guterres na ONU?

Seus admiradores afirmam que o principal legado de Guterres foi manter a ONU e suas centenas de braços operando em meio a grandes crises. Ele também foi elogiado por colocar a ação climática no centro da agenda internacional e por sua visão em relação à inteligência artificial.

Guterres foi criticado por sua gestão de conflitos?

Sim, críticos apontam que Guterres não teve pulso firme na mediação de conflitos internacionais, sendo inclusive declarado persona non grata por Israel e sem diálogo com a Rússia, em um período de grande número de guerras globais.